domingo, 25 de janeiro de 2026

O fumo e o fumeiro!

 Nasci, fui criado e defumado numa antiga (e decrépita) casa de lavoura que o meu pai conseguiu alugar ao seu antigo patrão, quando se casou. A casa pertenceu e foi habitada, até pouco antes do casamento de meus pais, por membros do clã de Jerónimo Ferreira. A família que já ia na quinta geração a repartir heranças e cada vez era mais pobre, acabou por vender a propriedade a um lavrador abastado, o tal que garantiu emprego ao meu pai, no princípio da sua vida activa.

Olha que a casa está quase a cair e o telhado deixa entrar água, tal como uma cesta rota! Foram estas as palavras do Sr. Laurindo, herdeiro de uma das maiores fortunas (em terras, pipas de vinho e carros de pão) da freguesia em que o meu pai nasceu. Eles eram mais ou menos da mesma idade e ainda devem ter brincado juntos, nos tempos da escola primária, mas depois disso um virou trabalhador na lavoura e o outro o seu patrão.

Não lhe dê isso preocupação, Sr. Laurindo, arrende-me a casa e esse problema passa a ser meu. Foi assim que o meu pai lhe respondeu e a partir daquele momento tinha uma casa onde abrigar a mulher com quem queria casar e a sua mãe que com ela vivia. Nos dias seguintes, foi até a essa casa e deu um arranjo no telhado, focando-se nos dois pontos mais importantes, aquele que ficava por cima da cama onde iria dormir e a cozinha (enorme) na parte em que ardia a lareira e no canto onde ficaria a cama da sua sogra que seria também a cozinheira.

Corria o mês de Julho e teria que esperar pelas primeiras chuvas de Outono para ver se o arranjo provisório que dera no telhado era o suficiente. Casado de fresco e ainda sem filhos, a grande preocupação era arranjar trabalho que garantisse o sustento daquelas três almas e o pagamento da renda ao senhorio que esse era o primeiro dinheiro a pôr de parte, de modo a garantir que não teriam que viver como sem-abrigo.

A cozinha era "tocada" a lenha que se apanhava nas matas (bouças) das freguesias vizinhas, mas não havia grande fartura, devido à concorrência que era muita, e por vezes tinha que se queimar rama de pinheiro ainda mal seca. O resultado era uma fumaceira que vocês não serão capazes de imaginar, dentro daquela cozinha. O fumo ia-se escapando por entre as telhas do telhado, mas antes de encontrar o seu caminho fazia-nos arder os olhos e escorrer as lágrimas pela cara abaixo.

Lembrei-me destas passagens da minha vida, nos primeiros anos da minha infância, ao ver as notícias do "Fumeiro de Montalegre", um dos mais famosos de Portugal. Hoje é o último dia e não falta lá gente, levada pelo espectáculo da neve e pelo sabor dos enchidos que esperam saborear ao almoço, num dos muitos restaurantes que naquelas redondezas os servem. Eu só visitei essa feira uma única vez e não fiz um euro de compras, os preços são proibitivos. Na verdade, ainda não havia euros e os contos de reis que eu tinha no bolso serviriam para coisas mais necessárias que um pedaço de carne de porco vendido como se de ouro se tratasse.

Uma barriga de porco ou pernil que se compram, nos talhos, por meia dúzia de euros, custam ali uns belos e redondinhos 15€ só porque, dizem eles, é de porco bísaro criado quase como um membro da família, até lhe meterem a faca e o transformarem em chouriços. Pode ser bísaro ou porco preto do Alentejo, não podem é triplicar o preço só por o terem pendurado ao fumo, durante uns tempos. Eu também apanhei muito fumo e ninguém me dá mais valor por isso!

 Os preços praticados são proibitivos e a continuar assim acabarão com o negócio, E tanto vale ser em Montalegre, como em Vinhais, Bragança ou Mirandela, os vendedores correm as feiras todas e pedem um preço que todos sabemos que é um exagero. É só uma vez e por festa, dizem alguns, e depois vão a correr até à fábrica da Angelina, em Mirandela, onde se compram boas alheiras por 4.50€ por kilo. Eu que não sou parvo, faço,, exactamente a mesma coisa!

Este é que é o tal bísaro!

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