Ontem como hoje, cada vez que um ministro faz uma promessa, é certo e sabido que é uma espécie de mentira elástica pela qual devemos puxar até que se transforme na realidade ansiada.
Este comboio que se vê na imagem era aquele que me levava até ao Porto para depois eu entrar na Linha do Norte e rumar a Santa Apolónia. E daí até à Doca da Marinha para apanhar a vedeta para a outra banda. Nos idos de 1990, como ministro do governo de Cavaco Silva, ele veio à Póvoa e quando lhe perguntaram se ia mesmo encerrar a Linha da Póvoa ele garantiu: Só quando tivermos uma autoestrada da Póvoa a Famalicão!
Na verdade, em 1995 a exploração da linha terminou, o que motivou um grande clamor entre a população do concelho. Só muitos anos depois, em Janeiro de 2005, chegaria a tal prometida autoestrada que levasse a Famalicão, num tempo razoável, aqueles que antes usavam o comboio. Durante 10 longos anos, viu-se o povo obrigado a usar a EN206, fraquita estrada nacional que atravessa os concelhos da Póvoa, Vila do Conde e Famalicão, levando quase uma hora para vencer uma distância que não chega a 30 quilómetros.
A ideia do Cavaco era provocar a mudança e investir no sector rodoviário, parar os comboios e construir autoestradas com os rios de dinheiro que a Europa pôs à sua disposição. Foi uma loucura que durou até ao governo de Sócrates e à chegada da Troika. Hoje, voltamos a receber dinheiro de Bruxelas, o mais que famoso PRR, para desfazer o que fizeram Cavaco Silva e Sócrates e mais alguns artistas aí pelo meio, tão bons ou melhores que eles a esbanjar dinheiro público.
No próximo quarto de século, iniciado a 1 de Janeiro do corrente ano de 2026, teremos uma Linha (ou duas, ou até três) de Alta Velocidade para atravessar a Espanha e chegar a França e Alemanha em pouco mais tempo do que leva um avião, contando com as horas que se perdem nos aeroportos, seja no check in ou no check out. Isto para tirar alguns aviões da nossa atmosfera que, está provado, são os maiores poluidores. Ao mesmo tempo, vamos construir um enorme aeroporto para acomodar os tais aviões que não queremos que levantem voo.
Pelo que acabei de escrever, sou obrigado a concluir que estávamos errados no tempo do Cavaco, tal como no tempo de Sócrates e, se calhar, estamos ainda mais errados no (presente) tempo de Montenegro. Sou obrigado a concluir que comboios, autocarros e camiões, assim como autoestradas, aeroportos e linhas férreas são apenas meios de motivar a economia, gerar empregos e manter o mundo em marcha.
Ninguém estava errado, excepto o Ministro Ferreira do Amaral que não tinha nada que vir à Póvoa dizer que o comboio para Famalicão só pararia depois de inaugurada a prometida autoestrada, coisa que demorou quase 10 anos a acontecer. Dez anos é muito tempo e a mentira ultrapassou tudo aquilo que seria aceitável!
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