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terça-feira, 17 de março de 2026

Sinto-me sozinho!

 É como se eu corresse a maratona e não avistasse um único atleta a perseguir-me!

O meu pensamento seria que todos deviam ter desistido, pois não me considero tão bom corredor que os deixasse tão lá para trás!

Refiro-me, é claro, aos meus "colegas" que se dedicam a escrever em blogs, como eu tenho vindo a fazer desde 2008, ano em que descobri a blogosfera e aprendi a surfar a sua onda!

A minha primeira motivação não foi a escrita por si só, de escrever já estava farto por razões profissionais, foi um meio de tentar localizar, saber notícias, dos antigos camaradas da tropa e da Guerra Colonial.

Tudo começou em 2002, ano em que recebi uma carta a convidar-me para um almoço convívio, em Sintra. Essa carta foi endereçada para a morada que eu tinha dado, quando me apresentei à inspecção, no Corpo de Marinheiros, onde os meus pais, felizmente, ainda vivos a receberam. O carteiro deve ter perguntado se eu morava ali e o meu pai deve ter respondido que não, mas faria a carta chegar às minhas mãos.

Três alunos marinheiros da Escola de Vila Franca de Xira tinham-se juntado e formado uma comissão para localizar os cerca de 900 camaradas do recrutamento de Março de 1962. Um desses 3 era casado com uma senhora que trabalhava no Ministério da Marinha e foi por intermédio dela que tiveram acesso aos endereços de todos nós. É claro que 40 anos depois, já alguns tinha falecido e a maioria mudara de endereço. Mas tal como aconteceu comigo, a grande maioria das cartas encontrou o destinatário.

Essas 900 praças dividiam-se em dois grupos, em primeiro e destacado lugar todos aqueles que tinham seguido a carreira militar. Em segundo lugar, os que tinham abandonado a Marinha logo que cumprido o prazo obrigatório, dividiam-se também em dois grupos. Em primeiro lugar os que tinham gostado da experiência e sentiam saudade desses tempos da juventude e dos amigos que tinham deixado para trás. Os outros, talvez a maioria, não tinham saudades nenhumas e estavam a marimbar-se para esses almoços que só lhe traziam despesa e perda de tempo.

Muitos desses camaradas tinham emigrado, logo que entregaram os seus pertences, em Alcântara, e viraram as costas àquele curto período de 4 anos da sua vida. Alguns desses só tomaram conhecimento da coisa quando se reformaram e retornaram ao seu país de origem. Lá foram aparecendo e relatando as suas aventuras, mais bem ou mal sucedidas, e sempre com mais saudades da família que tinham deixado lá fora (filhos e netos) do que dos velhos camaradas que nem conseguiam reconhecer naqueles velhotes barrigudos, de óculos encavalitados sobre o nariz e falta de cabelo no cocuruto.

A grande maioria dos que apareceram nesse almoço de Sintra eram da Escola de Alunos Marinheiros, da minha Escola de Fuzileiros apareceram cerca de 25. Metade deles reconheci-os logo, a outra metade, onde se incluía um dos meus amigos mais chegados, estava de tal modo mudada que foi necessária uma identificação particular e recurso a fotos antigas para acreditar no que os olhos viam. Daí surgiu a ideia de fazer também um almoço convívio só para fuzileiros, pois aqueles "gajos" de Vila Franca nunca os tínhamos visto mais gordos.

E recaiu em mim a escolha para pôr em prática essa missão. Eu mexia-me bem no mundo dos computadores, não tinha problemas de escrita e já tinha dado umas voltas pela Net (World Wide Web) que serviria para os nossos futuros contactos. A primeira grande dificuldade seria arranjar uma lista de todos os camaradas, em especial aqueles que tinham estado connosco no Ultramar. No início não foi fácil, apareceu um que apresentou uma lista manuscrita com cerca de metade dos que fizeram parte da CF2 (Companhia de Fuzileiros Nº 2) e por aí se começos.

Pouco tempo depois apareceram aqueles 4 livros sobre a participação dos fuzileiros na Guerra Colonial, compilados (com muitos erros) pelo Comandante Sanches de Baena e alguém me fez chegar um exemplar às mãos para me ajudar na minha tarefa. O nosso primeiro convívio aconteceu em 2008 e teve lugar num restaurante da Serra D'Aire, onde compareceram cerca de 125 pessoas, entre filhos da escola e respectivas famílias.

Depois dessa data, continuei a tentar repetir a cena, uma vez por ano, trazendo mais gente, em especial, aqueles que tinham faltado ao primeiro. Muitos não sabia ainda por onde andavam, nem tão pouco se eram vivos ou mortos. Escrevi muitas cartas, fiz muitos telefonemas, em conjunto com outros camaradas que se ofereceram para me ajudar, andei de terra em terra à procura dos que faltavam.

A última grande viagem foi até uma localidade no interior da Galiza, onde conseguimos localizar um desses camaradas que, em Junho de 1965, enquanto decorria o Curso de 1º Grau na Escola de Fuzileiros, tinha desertado e ninguém conseguia explicar o que se passara com ele. Uns defendiam que tinha morrido, outros que fugira para o Brasil e por aí fora. Ele tinha um irmão que trabalhava na Siderurgia Nacional, ali do outro lado do malagueiro, em frente à Escola de Fuzileiros, mas isso ninguém sabia na altura. E mesmo que soubesse, talvez não resultasse em nada, pois ele teria medo de delatar o desertor. Nesse tempo a PIDE ainda estava no auge do seu poderio e não se podiam correr riscos.

Por essas e por outras é que eu fui entrei na blogosfera e tentei de tudo para que a minha voz chegasse a todos os continentes e aos olhos e ouvidos desses emigrantes que ninguém sabia por onde andavam. Tive notícias de uns que viviam em diversos países da Europa (França, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo) e outros que tinham ido mais longe, como Brasil, Estados Unidos e Canadá. Alguns, mas poucos, consegui que viessem a um desses almoços, de outros consegui o endereço de e.mail para envio de fotos, etc., mas a maioria nunca apareceu.

Uma das primeiras tarefas foi separar os vivos dos mortos. Cheguei a ir a vários cemitérios confirmar que estava lá sepultado este ou aquele camarada que fazia parte da lista e nunca respondera ao meu chamamento. A minha mulher acompanhou-me algumas vezes e achava que eu devia ter um parafuso desapertado por andar à procura de alguém de quem me tinha separado há perto de 40 anos e de quem nunca mais tivera notícias.

Mas era a minha missão e cumpri-a o melhor que pude, enquanto tive pernas para isso. Com o tempo as presenças foram-se reduzindo a um mínimo que já não justificava o meu esforço e decidi parar. O último grande almoço, aconteceu em 2016, num restaurante de Vila Real de Trás-os-Montes. Poucos transmontanos tinham frequentado esses convívios com a desculpa que eram sempre muito longe do lugar onde viviam. Resolvi aplicar aquele princípio que refere que "se o Maomé não vai à montanha, leva-se a montanha a Maomé.

E avisei toda a gente que aquela era a minha despedida como organizador de convívios, se alguém estivesse interessado em continuar eu daria a minha ajuda. Mas como sempre acontece nestes casos, ninguém deu um passo em frente. Para responder a um pedido que não tive maneira de recusar, organizei um pequeno encontro, em Fátima, no verão do ano passado, em que estiveram 30 pessoas, mais familiares que fuzileiros!

Entretanto, o tempo não para e muitos daqueles que participaram nesses convívios já partiram deste mundo. Até isso serve para eu ir alimentando a blogosfera, comunicando a quem por isso se possa interessar, as datas e nomes daqueles que vão caindo pelo caminho. Somos cada vez menos, os mais novos já completaram os 80 anos de vida (no meu caso 82) e não faltará muito até que o último parta ou a minha voz se cale para sempre! 

O homem da maratona

domingo, 7 de maio de 2023

Uma data marcante!

 


O ano de 2010 foi uma data marcante na minha vida de fuzileiro reformado que tinha partido à procura dos seus camaradas da Guerra Colonial, no ano de 2008. Para levar a cabo a tarefa que a mim mesmo impus recorri à internet aproveitando as imensas possibilidades que as novas tecnologias emprestam à informação.
Criei o meu primeiro blog, em 2008, para me permitir ir registando os avanços das pesquisas que ia fazendo e publicando fotos e relatos que me ajudassem a espalhar a mensagem que pretendia chegasse o mais longe possível.
A Companhia de Fuzileiros Nº 2 que partiu para Moçambique no Outono de 1962 tinha 160 homens. Nem o nome deles sabia, nem tão pouco tinha a menor ideia por onde andariam ou se eram ainda vivos ou já pertenciam ao rol dos falecidos. Recorri aos amigos que sabia terem feito carreira na Marinha e tinham maior facilidade de me ajudar nas pesquisas. Visitei algumas instituições da Marinha, como o Arquivo Histórico e com a ajuda de alguns camaradas corri Portugal, de norte a sul e de este a oeste à procura de indícios que me permitissem encontrar as pessoas e completar os dados que ia recolhendo.
Ao saber que um oficial da Marinha tinha publicado uma série de livros contando a história dos fuzileiros, em África, adquiri aquele que se referia a Moçambique e lá encontrei 90% da informação que precisava. Foram dois anos e picos de grande trabalho que no fim do Verão de 2010 dei por completo. Nesse ano organizei um convívio, em Montemor-o-Novo para motivar os residentes no Alentejo e Algarve a aparecerem, sendo a distância mais curta.
Foi o convívio que mais gente reuniu, vieram até alguns camaradas que estavam emigrados e até houve um caso que veio uma senhora em representação do marido que residia no Brasil. Depois dessa data realizei ainda uma meia dúzia de convívios, mas cada vez iam rareando mais as presenças. Depois parei, pois já me sentia cansado de andar à caça deles e levar muitas negas, comecei a sentir que alguns diziam que sim só para me agradar. Em 2016 organizei um último, em Vila Real, para caçar alguns transmontanos que nunca tinham comparecido, dizendo que a viagem era muito longa.

Com a morte do Floriano, na passada sexta-feira, fui obrigado a concluir que estamos todos velhos demais para essas correrias e muitos faleceram já, desde o convívio de Montemor até hoje. Hoje passei o dia a revisitar os álbuns de fotografias que fiz desde 2008 até 2016 e fiquei banzado com o número de caras que desfilaram perante os meus olhos e já não pertencem a este mundo. Foi um dia triste, é no que dá ir remexer o passado!

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

O Marlon!

 Esta publicação deveria ser feita no Blog da CF2, mas como pouca gente passa por lá (e ainda menos comenta) vou fazer de conta que me enganei e não aceito críticas.

O 16581, de seu nome João Manuel Azevedo, era conhecido pelas alcunhas de NUNO ou MARLON. Marlon por ter uma ligeira parecença com o Marlon Brando, antes de este ter engordado uma brutalidade de Kilos. Do Nuno não sei a origem, nem ele me soube responder, quando lho perguntei, na última e única vez que estive com ele, desde Junho de 1965.

Fomos juntos para Moçambique, incorporados na Companhia de Fuzileiros Nº 2, num dia que não recordo do mês de Outubro de 1962 e vivemos grandes aventuras, durante os 30 meses que passámos naquela ex-colónia portuguesa. Até para Metangula, no Niassa, fomos juntos, quando a Frelimo desatou aos tiros, por aquelas bandas.

Quando, em 2008, decidi localizar todos os membros da Companhia e saber quem era vivo ou morto, deparei-me com o problema de ninguém saber dele, nem como desapareceu da Escola de Fuzileiros, no verão de 65. Houve até muito boa gente que o deu como morto, mas isso nunca me convenceu, pois são raros os casos em que o morto nunca mais aparece, Se tivesse morrido afogado no Tejo, como alguns aventavam, o seu cadáver apareceria a boiar em qualquer lado, mesmo que flutuasse até à Galiza.

Esta de ele flutuar até à Galiza saiu-me assim de repente, mas foi exactamente onde o fui encontrar, muitos anos depois. Cheio da Marinha até à ponta dos cabelos e acreditando que, logo que acabasse o curso em que ambos estávamos empenhados, ambos seríamos recambiados para África e, se o azar espreitasse, talvez para a Guiné, decidiu desertar. Percorrendo caminhos só dele conhecidos e com a ajuda de um irmão que trabalhava na Siderurgia Nacional - por onde ele também passara, antes de ingressar na Marinha, foi parar a uma aldeia do interior da Galiza.

Dado como desertor, situação militar que nunca prescreve, veio a Lisboa, depois do 25 de Abril, para regularizar a sua situação, uma vez que o governo português "socio-comunista" ofereceu essa possibilidade aos muitos jovens que tinha virado as costas a Portugal, por mor da Guerra Colonial. No entanto, contou-me ele, a confusão era tanta e as exigências de papelada tão difíceis de concretizar que regressou à Galiza sem nada ter feito e, como eterno desertor, lá continua a viver.

Quando lá chegou, nos idos de 1965, arranjou trabalho como simples operário numa fábrica de serração. Aos poucos foi ganhando a confiança do patrão, a tal ponto que, um belo dia, começou a namoriscar a sua única filha. E com ela se casou e formou a sua família. Ela era filha única e só teve uma filha também. A sua morte prematura deixou-o como herdeiro da serração, em que trabalhava, uma vez que o sogro também já tinha ido prestar contas a S. Pedro. A filha, entretanto, formara-se em Medicina e já trabalhava num hospital, em Vigo.

Viúvo e sem ninguém com quem se entreter nas horas vagas, arranjou uma amiga viúva e com ela e os seus descendentes - que o Nuno trata como seus verdadeiros netos - vive até à data. Que Deus lhe dê muita saúde e uma vida longa para disfrutar dessas benesses que a sorte lhe meteu pela porta dentro.

Ele era filho de mãe solteira - sabe Deus a carga negativa que isso carregava, nesses tempos de miséria - nascido numa aldeia na zona de Numão, perto de Fozcoa. Segundo me contaram, o seu pai era um empresário na área da Moagem e a sua mãe uma sua empregada. Ele passou os primeiros anos da sua vida trabalhando aqui e ali, primeiro para o seu pai e depois na agricultura, até que decidiu que aquilo não era futuro e seguiu os passos do seu irmão que tinha vindo para o Seixal e arranjado trabalho na Siderurgia do Champalimaud. E pouco depois, chegada a hora do Serviço Militar, concorreu à Marinha, onde nos encontrámos, em março de 62.

Ontem, na posse de um Smartphone com muitos minutos disponíveis, decidi marcar o seu número de telefone e ver se ele, ou alguém da família, me atenderia. Sempre tenho receio de ouvir uma má notícia, quando, ao fim de muitos anos de ausência, procuro por notícias de algum velho camarada. Mas a sorte estava comigo e ao fim de uns poucos toques ele atendeu e ouvi a sua voz. Ele que já nem português sabe falar, ao ouvir a minha voz reconheceu-me imediatamente. Devem ser tão poucas as ligações que tem com Portugal que eu serei um dos poucos a pensar nele neste início do ano em que ele festejará o seu 82º aniversário.

No próximo verão terão passado 13 anos sobre o nosso reencontro, em Monforte de Lemos e muita água passou já por baixo das pontes que atravessam o rio que passa por esta cidade galega, mas o NUNO está bem de saúde e ainda reconheceu a minha voz, vinda dum passado longínquo. Deixei-lhe um grande abraço e os votos de Bom Ano Novo. Terei que lembrar-me de lhe ligar de novo, no fim deste ano para reiterar os votos. E de mim, quem se lembra?


terça-feira, 28 de julho de 2020

O regresso dos Fuzos!

Ontem, referi-me à Póvoa das Forcadas e disse que ficava na Serra da Estrela. Foi uma imprecisão minha, pois fica em Carregal do Sal, ainda distante da dita serra, mas pertencendo à mesma região. O que me esqueci de referir é que nessa póvoa mora o Sargento Veloso, meu compincha da CF2 e também CF8, quase cinco anos juntos a calcorrear as terras moçambicanas. Tal como me lembrei que o Miguel, o meu primeiro Chefe de Esquadra nos fuzileiros (já falecido), morava na Póvoa de Santo Adrião e o Compadre Eduardo na de Santa Iria.


Serra da Estrela, rio Mondego e seus afluentes, fui parar a Arganil, por onde passa o rio Alva que é um dos tais. Ao ver as duas senhoras, atarefadas no esfrega-esfrega, recordei os meus velhos tempos em que nem electricidade havia, quanto mais máquinas de lavar. A minha mãe era costureira e dedicava-se pouco às lides domésticas, tarefa que ficava para a minha avó Maria. Calhou na rifa eu ser o terceiro filho dos meus pais e os dois que me precederam eram ambos do sexo feminino. Assim, quando era hora de lavar a roupa, a minha avó tinha sempre duas ajudantes/aprendizes que a acompanhavam até ao tanque da aldeia. Não tendo nada melhor para fazer, eu acompanhava-as, era uma espécie de homem presente para manter o respeito e os gabirus à distância. Eu tinha apenas meia dúzia de anos de idade, mas servia para o efeito.
Próximo desta localidade que a imagem representa, veio aterrar outro fuzileiro, filho da minha escola e também ele membro da CF2, Guilherme (o Russo). Foi assim apelidado por ter uma autêntica carapinha loira. Natural de Évora, não seguiu a Marinha e não regressou ao Alentejo, quando a abandonou. Ficou-se pelas margens do Tejo, arranjou emprego na Lisnave e acabou a carreira, em Setubal, quando a Lisnave virou Setenave, nas margens do Sado.
Habituou-se às margens dos rios e, depois do Tejo e Sado, escolheu o Alva para passar os últimos anos da sua vida. Manteve a sua casa na Cova da Piedade (talvez ainda hoje mantenha) e lá voltava, religiosamente, de vez em quando, mas não há nada que pague o sossego e a calma que se vive na Beira Interior. Isto faz com que as visitas sejam cada vez mais raras e com a idade que já tem, mais dia menos dia, perde a vontade de andar na estrada e assenta de vez.
Um abraço para eles, os aqui recordados!