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domingo, 14 de maio de 2023

Kirmes da Primavera!

 


Na cidade que me acolheu, como emigrante, está a decorrer a feira/quermesse da Primavera que leva à cidade milhares de pessoas à procura de diversão. Eu que vivia no centro da cidade não tinha mais que abrir a porta e já estava no meio da festa. A zona é eminentemente agrícola pelo que a festa era, como poderia dizer-se aqui, em Portugal, um encontro de labregos. Carrocéis, salsichas e batatas fritas - a loucura dos jovens alemães - e muita cerveja.

Enquanto o álcool não embota os sentidos, há muito namoro também nessa festa, mais tarde já sem controlo dos sentidos só se pensa na bebedeira. Apanhar uma cardina a sério é um modo de fugir da realidade e da vida trabalhosa do dia-a-dia. Eu nunca embarquei muito nessa coisa de beber até cair, pois a cerveja pesava-me no estômago e a paginas tantas já não a conseguia engolir.

Um belo dia, durante a feira de Outono, fui até ao centro da festa e entrei numa cervejaria a abarrotar de gente. Calhou-me em sorte uma miúda de 19 anos, em trabalho eventual, para servir copos aos clientes e motivá-los a esvaziá-los o mais rápido possível. O costume ali era, sempre que o copo ficasse vazio aparecia logo outro cheio e o vazio era retirado da mesa. A base em papel ou corticite servia para apontar os copos bebidos, cada copo um risco a imitar os raios de uma roda de bicicleta, que no fim era apresentado na caixa para pagar a conta. Tinha um amigo galego que só parava depois de ter completado o círculo completo de risquinhos (raios). Para completar o círculo era preciso beber 55 copos e ele consegui-o mais que uma vez. Na manhã seguinte aparecia no trabalho com os olhos em bico. Só era aconselhável fazer aquilo numa sexta-feira, mas ele não ligava a isso.

O que facilitava essa corrida à cerveja era o preço de 0.50 DM. Eu ganhava numa hora de trabalho 6.50 DM líquidos, o equivalente a 13 chopes brasileiros (200 mls), ficava barato encher a cara, embora o baixo teor de álcool desse mais para passar a noite a correr para o urinol que outra coisa. Imaginam um alemão de copo na mão esquerda e pila na mão direita a esvaziar a bexiga? Pois eu assisti a essa cena mais que uma vez.

Os alemães são muito bêbados, mas também muito responsáveis. Como o trabalho é coisa sagrada e respeitar horários é com eles, aos domingos, por volta das 6 horas da tarde, acabou.se a tarefa de emborcar copos. Ir para casa, comer qualquer coisinha e dormir muito, pois o despertador toca às 5 da matina e é preciso saltar da cama bem disposto para um novo dia de trabalho.

Num desses domingos, à tardinha, com a cervejaria a ficar sem clientes, veio a tal miúda de 19 anos sentar-se na minha mesa e meter conversa comigo. A páginas tantas, o patrão disse-lhe que era melhor ir embora que não estava ali a fazer nada. E ela foi. E eu acompanhei-a até casa. E subi com ela as escadas até ao sótão, onde tinha o seu quarto. No Natal seguinte trocámos prendas e ela segredou-me que estava grávida. Que rica prenda! 

O ano de 1971 começou com muitas dores de cabeça para mim. Tinha uma mulher e uma filha, em Portugal, e outra à espera de uma filha (soube-o quando ela nasceu), na Alemanha. Como organizar o meu futuro? Escolher uma das duas ou ficar com as duas? Eu não me via a trabalhar como operário metalúrgico uma vida inteira e foi mais isso que pesou na minha decisão que outra coisa qualquer. Nas férias de verão desse ano, fiz a trouxa com os meus poucos pertences e regressei a casa.

Arranjei um bom emprego e por aqui fiquei até hoje. Mas penso muitas vezes o que teria acontecido se eu tivesse decidido de outro modo, ficando lá a criar a filha e enviando apenas uma pensãozita à minha mulher para criar a outra. Só Deus sabe responder a essa pergunta, de qualquer modo não posso rebobinar o filme e escolher outro fim. Paciência! 

terça-feira, 1 de junho de 2021

Vamos falar de cerveja?

 Vamos a isso! Saia uma caneca para afinar a garganta!

Disseram, ontem, nas notícias a que assisti na TV que os ingleses pagaram 10€ por copo de cerveja, no Porto, durante a estadia para assistirem à final da Liga dos Campeões. Se calhar, foi por isso que acabaram todos à batatada, ficaram "putos da vida" pelo preço que pagaram e queriam descarregar a raiva em alguém. A maior parte distribuíram-na entre eles, citizens contra blues, mas algumas ainda caíram na cabeça de alguns polícias portugueses. Se pagaram esse preço exorbitante é porque quiseram, tinham-na mais barata em Londres e Manchester, onde também havia ecrans gigantes para ver o jogo, mas preferiram vir para o Porto. Decisão deles e, como é costume dizer por aqui, cada cabeça, sua sentença.


A primeira coisa que estranho nos ingleses é o tamanho e o feitio do copo. Quase toda a gente prefere um copo pequeno, de modo que a cerveja não fique morta e aquecida, mas eles querem um grande e andam com ele fechado na mão, de um lado para o outro, deve ficar bonita aquela cerveja em pouco tempo.


Da colecção de copos que vêem acima eles escolheram o maior. Podia ser uma caneca, com asa para lhe pegar sem aquecer o copo, mas eles querem ser diferentes. Por alguma razão são os únicos do mundo que conduzem pela esquerda, ensinaram meio mundo a fazê-lo também e até na escola ensinam a canalha a escrever com a mão esquerda. Uns idiotas, dizemos nós que, por nada deste mundo quereríamos ser como eles.


Beber cerveja com estilo é na Alemanha. É tão bom que até as mulheres gostam. E nada de finos ou imperiais, é de caneca para cima! E se querem apanhar a "osga" mais depressa despejam um "schnaps" (espécie de aguardente) dentro da caneca de cerveja.




Fui trabalhar para a Alemanha no ano de 1970, comecei no dia 1 de Junho (faz hoje, exactamente, 51 anos). Antes de começarem as férias de verão, a empresa fazia uma festa para todos os trabalhadores que constava de um jantar para os trabalhadores e seus cônjuges, regado com muitos litros de boa cerveja e seguido de um bailarico que durava até às tantas, onde se continuava a beber até cair de quatro. Nessas festas era tradição tomar o último trago servido numa bota que dava a volta à mesa e da qual cada um bebia o que lhe coubesse no estômago. Eu que não estava habituado àquilo nem queria fazer feio, bebi um golinho e passei a bota ao vizinho do lado. Ele recusou a bota e disse que eu tinha que beber até perder o fôlego. E lá tive que cumprir a tradição, foi uma espécie de praxe para ser bem aceite na comunidade. Na semana seguinte, fizemos um jogo de futebol, entre secções da fábrica, quentes contra frios (os da fundição contra os outros) e no fim houve jantarada e a cena da bota repetiu-se.



Que rica cerveja por lá havia! O difícil era escolher! Para mim era a "Kölsch"!!!