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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Ainda sobre Mtelela!

Num documento secreto entre a Frelimo e as autoridades portuguesas tinha-se acordado nas prisões ao abrigo de dois decretos prevendo a prisão de pessoas opostas ao processo de descolonização .

Urias Simango foi preso após ter sido atraído ao Malawi pelas autoridades deste país e entregue à Frelimo.

Joana Simião foi presa na Beira e transferida para a prisão da Machava onde recebeu visitas da Cruz Vermelha Internacional, através da qual pediu a sua transferência para ser julgada em Portugal algo que foi negado pelo Alto Comissário português na então Lourenço Marques, hoje Maputo.

Ambos e outros foram transferidos para o campo de Nachingweia na Tanzânia, em aviões da força aérea portuguesa, disse João Cabrita, e mais tarde transferidos para M'telela.


Sérgio Vieira foi colega de Joana Simião, nos tempos da Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, e se havia alguém que conhecia toda a verdade do que se passou ao longo do período conturbado da troca do poder em Moçambique, de 1973 a 1980, era ele mesmo, pois ocupou sempre cargos de liderança dentro do partido, até ao dia da sua morte, em 2021.

A VOA (Voice of America) publicou montes de informação a esse respeito e quem quiser aprofundar os conhecimentos sobre o período revolucionário que conduziu à independência de Moçambique deve consultar os seus arquivos. A mim basta-me a afirmação de um jornalista que fez uma entrevista a Sérgio Vieira em que ele reconheceu ser verdade tudo aquilo que se dizia sobre a morte de Joana e todos os outros que constam do documento acima.

Logo a seguir a independência de Moçambique, em 1975, Sérgio Vieira assumiu cargos de relevo no Governo, tendo sido, por exemplo, governador do Banco de Moçambique, ministro da Administração Interna, ministro da Segurança, ministro da Agricultura e governador do Niassa. O líder histórico foi ainda deputado na Assembleia da República. Para além da política esteve envolvido também no mundo das artes, onde fez poesia.

Nasceu na província central de Tete, em 1941. Contestatário do regime colonial português, Vieira tornou-se nacionalista e por isso perseguido pela PIDE, a polícia política portuguesa. Na Casa dos Estudantes do Império, em Portugal, o centro de ebolição do nacionalismo, ganhou impulso para continuar com a sua causa. Não chegou a terminar o curso de direito, pois mais uma vez foi alvo de perseguição.

Depois disso juntou-se a FRELIMO, na altura movimento que lutava contra a ocupação colonial portuguesa. Elaborou um relatório sobre o assassinato de Eduardo Mondlane, em 1969, na altura líder do movimento. Numa entrevista concedida à DW, em 2014, garantiu: "Eu não tenho a minha versão, tenho a versão".

domingo, 12 de abril de 2026

Mtelela, o campo da morte!

Ainda antes da independência, durante o período de transição em que Moçambique foi governado por uma autoridade híbrida luso-moçambicana, foram instituídos campos de reeducação, essencialmente na distante província do Niassa.

O objectivo declarado desses campos era formar o homem novo, reabilitar pelo trabalho, as franjas da sociedade que eram consideradas mais marginais ou dissidentes. Foi neste âmbito que pessoas consideradas adversárias políticas foram detidas e mortas em circunstâncias que até agora não foram esclarecidas.

Isto sucedeu nomeadamente com Uria Simango, Joana Simeão e Adelino Guambe, figuras que tinham sido activas no seio da Frelimo e que foram acusadas de traição por não concordarem com a linha seguida pelo partido.

Antiga Nova Viseu e actual Mtelela

Peneirei, cuidadosamente, toda a zona que o Google Earth me mostrou como sendo a zona da antiga Nova Viseu, mas não encontrei o mínimo sinal de construções antigas ou modernas. Deslocando-me um pouco mais para norte, encontrei uma povoação de tamanho considerável que bordeja uma estrada que corre no sentido norte/sul. Pode ou não corresponder ao famoso sítio que a Frelimo escolheu para erguer um «Campo de Reeducação», onde foram parar quase todos os que discordavam das ideias de Samora. E, como é sabido, a maioria deles acabou ali enterrada, depois de torturada e assassinada.

Depois da minha prelecção de ontem, a respeito da Guerra Colonial, hoje apeteceu-me falar mal da Frelimo e do escroque que a liderou até alguém o ter enviado para o outro mundo por intermédio de um petardo habilidosamente escondido no avião que o trazia de regresso a Moçambique, após curta visita à África do Sul, onde foi vender as suas ideias de independência.

Começo por mostrar-vos a cara de uma jovem moçambicana que estudou em Portugal e com os estudantes seus colegas aprendeu a odiar o Salazar e a sua política, incluindo aquela que mantinha Moçambique debaixo das patas dos colonizadores que não lhes davam a independência. Houve outros antes dela, tão ou mais importantes para a «História de Moçambique» que algum dia alguém se encarregará de escrever, mas ela foi uma das mais faladas a acabar os seus dias no famoso campo em que os frelimistas queriam criar o "Homem Novo".

Homem Novo queria apenas dizer aquele que aceitava viver sob as regras estabelecidas por Moscovo e que os novos governantes de Moçambique juraram seguir, em troca das armas e demais ajuda que a Rússia lhes deu na guerra contra Portugal. Nada mais que uma lavagem ao cérebro era o que planeavam fazer os caciques do partido a todos os moçambicanos e, pelo que ainda hoje vemos na população menos bem informada, esse objectivo foi alcançado.

Como estudante, em Lisboa, a Joana depressa entrou em contacto com outros estudantes negros que perfilhavam as suas ideias. E cedo a PIDE a tinha referenciado como alvo a abater. Mas ela antecipou-se e depois de uma fuga para Madrid foi parar a Argel, onde se casou e teve os primeiros contactos com a Frelimo. Pouco tempo depois, já estava em Paris e divorciada e mãe de 3 filhos.

Em 1971, regressou a Moçambique com a ajuda de Jorge Jardim e viveu algum tempo na zona da Beira, mas depressa foi parar à capital, onde arranjou emprego como professora no Liceu António Enes. Em 1973, a convite de Máximo Dias, entrou no novo partido GUMO que ele fundara. Com a Revolução dos cravos a aproximar-se, rapidamente, Joana conhecera muita gente importante do círculo de Marcelo Caetano e tinha sobre ela os olhos e ouvidos da PIDE. Antes disso, ela ainda esteve em Lisboa e em nome do partido GUMO tentou convencer os governantes portugueses a alinhar numa desolonização amigável.

Nada feito, pois os ditos governantes não estavam na disposição de perder a sua colónia a que agora chamavam província de um império que ia do Minho até Timor. E então aconteceu o 25 de Abril e aquela sucessão de arbitrariedades levadas a cabo pelos comunistas e socialistas portugueses, comandados por Mário Soares, que terminou nos "Acordos de Lusaka". Em dissidência com Máximo Dias abandonou o seu partido e, após várias tentativas de formar um novo com novos aliados, acabou ligada a Uria Simango que juntou vários pequenos partidos e fundou o PCN (Partido da Coligação Nacional e abrindo uma frente de guerra com a Frelimo de Samora Machel e Joaquim Chissano.

Os moçambicanos brancos, filhos e netos de portugueses, não estiveram de acordo com aquilo que Mário Soares combinou em Lusaka e, em 7 de Setembro, revoltaram-se e tomaram o controlo da Rádio Clube de Moçambique com o resultado que todos conhecemos. Libertaram presos e pides e transformaram Lourenço Marques num grande "casino", como dizem os italianos. Em sequência disso, a Frelimo aproveitou para reforçar o seu poderio e eliminar qualquer foco de dissidência com o seu partido que já era preponderante.

E a Joana Simião, além de Uria Simango, foi o primeiro alvo a abater e acabar julgada secretamente e condenada como traidora à causa moçambicana. Ela e mais cerca de 3.000 outros políticos foi presa e andou de um lado para o outro até chegar a Nachingwea, na Tanzânia, onde Samora organizou vários julgamentos de fachada e a condenou a internamento do Campo de Reeducação de Mtelela para aprender a amar e respeitar a Frelimo. Em circunstâncias pouco conhecidas, mas com alguns testemunhos credíveis, ela foi ali torturada e assassinada e enterrada em lugar desconhecido.

Visita ao lugar (vala comum) onde foram enterradas muitas das vítimas

Por muitos anos, o regime obrigou crianças e adultos a desprezar pessoas como Joana Simeão, Uria Simango, Cavandame, como se quase fossem criminosos e não vítimas de uma ideologia de estado que não hesitou eliminar, torturar e deportar inocentes nos campos de extermínio. Como esquecer as duas levas de gente, em meados dos anos 70, nas quais milhares de mulheres, incluindo mães de família e rapariguinhas, foram deportadas, acusadas injustamente de prostituição? Ou então a Operação Produção de 82 quando 70.000 pessoas do sul foram aviadas na Sibéria verde do norte onde mais de metade morreu de miséria? Muitos dos sobreviventes regressaram a casa, por obra especialmente da Caritas, mas muitíssimos vivem ainda no Niassa, desenraizados e mal tolerados.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Os novos «Turras»!

 


Durante a Guerra Colonial, passei 5 anos em Moçambique. A maior parte do tempo passei-o na cidade, mas ainda fiz uma perninha a correr atrás dos «frelimos» no Niassa. Ao Cabo Delgado nunca fui, mas a guerra era mais ou menos igual em todo o lado. Umas emboscadas, umas rajadas de metralhadora, umas morteiradas e, principalmente, muitas minas. Fui dar uma ajuda, em 1964, aquando dos primeiros tiros, depois vim a Portugal lutas pelas divisas de Marinheiro e voltei ao Niassa no ano de 1966, já a guerra ia em adiantado estado com os «turras» mais bem armados e organizados.

É engraçado como a História se repete. Os turras que lutam em Cabo Delgado são os mesmos de antigamente, o inimigo é que é diferente. Em vez de combaterem o "Colonialismo" que era o seu grande opositor, combatem agora o "Comunismo" da Frelimo que assumiu o poder, desde a independência, e se está a marimbar para a população. Enquanto os líderes do partido engordam, enriquecem e vivem à tripa forra, o povo moçambicano, principalmente no norte, vive privado de tudo.

Quase todos os países africanos sofrem do mesmo mal, falta de democracia. Libertados do jugo colonialista, na década de 60 do século XX, embriagaram-se com a liberdade e ainda não voltaram a ficar sóbrios. Vai ser preciso que morram todos os que estiveram envolvidos nesse processo e nasça gente nova que esqueça o tempo colonial e pense apenas pela sua cabeça. Quem tinha 20 anos em 1975 e viveu a euforia da libertação poderá viver ainda mais 30 anos e só depois disso será expectável que as coisas comecem a mudar.

Uma coisa que pode entravar esse processo são os muitos académicos formados na Rússia ou na China, ao abrigo de acordos bilaterais, tanto em Angola como em Moçambique. No entanto, eu conto com a esperteza do Povo para perceber que o ideário comunista não lhes serve para nada e só os atrapalha no caminho para um futuro bem sucedido.

Quando leio as notícias sobre a guerra desencadeada em Cabo Delgado mais me convenço que tenho razão. Os insurgentes, como são chamados, são apenas descontentes com o governo da Frelimo e se querem ver livres dele. E o presidente Nyusi sabe disso, razão pela qual demorou tanto em aceitar ajuda externa para pacificar o norte. Ele sabe que o problema é político e estaria na sua mão resolvê-lo. Mas teria que ir contra os membros do seu próprio partido e meter na ordem aqueles que têm abusado da sua posição dominante roubando o Povo e vivendo como autênticos marajás. Perder privilégios para os dar ao Povo é coisa que lhes não agrada e por isso é tão difícil encontrar a solução para o problema.

A intervenção estrangeira vai matar uns quantos desses "descontentes" e prender outros, mas o problema não ficará resolvido. Enquanto não forem criados outros partidos que dêem luta à Frelimo e a vençam nas eleições, Moçambique, tal como Angola, continuarão a ser uma espécie de Venezuela africana e não terão paz. Aparecerão outros insurgentes a dar luta à Frelimo, enquanto esta se mantiver no poder. Triste destino para um povo sofredor que merecia melhor sorte!