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quarta-feira, 14 de junho de 2023

Passarada!

 Depois dos comentários que tiveram a amabilidade de me deixar aqui, fui pesquisar imagens para tentar encontrar os chascos e as chincharabelhas de que vos falei. Não posso dizer que fui bem sucedido, pois as imagens que encontrei não casam com aquelas que guardo na minha memória. Se as pernas me ajudassem pegava numa câmara fotográfica e ia para os campos e bouças, onde passei a minha infância, armar-me em observador ornitológico e trazer um monte de fotografias para actualizar aquilo que os sabichões escrevem na internet.

Antes de entrar no assunto propriamente dito, vou recordar uma pequena história de passarinhos que se passou comigo, na Primavera de 2001, quando tomei posse desta casa que acabara de comprar. Desabitada há mais de 3 anos a casa desabara, pura e simplesmente, e o quintal estava transformado numa autêntica selva que os gatos das redondezas tinham adoptado como seu parque privado de recreio e caça. Pássaros, cobras e lagartos, nada faltava ali para lhes tornar a vida feliz. No fundo do quintal, vedado por um muro com mais de três metros de altura, havia um buraco, daqueles que os pedreiros deixam nos muros para meter um barrote e montar os andaimes. Casualmente vi entrar para lá um passarito, o que despertou a minha curiosidade, e fui lá espreitar logo que o residente voou para longe. Era um ninho de carriça e lá estavam os filhotes que abriram o bico, logo que sentiram a minha presença. Deixei tudo como estava e todos os dias ia lá espreitar para ver se os inquilinos continuavam vivos e de saúde. Um belo dia, quando me aproximei, vi logo que tinham dado às asinhas e partido à aventura. A menos que algum dos gatos os tenha apanhado e manducado. No ano seguinte, fiquei à espera que a mãe carriça voltasse para fazer o ninho e pôr os ovos, mas nada aconteceu. Devo dizer que os carriços são pássaros envergonhados e desaparecem mal se sentem observados.

Pormenor para reconhecer a carriça- anda sempre com o rabo no ar

Nas minhas pesquisas descobri dois pássaros que são muito parecidos com as chincharabelhas que mencionei. Um deles é o Chapim Real, mas a cor das penas é diferente, é tudo preto ou branco, como a cabeça deste chapim.

O outro é o Melharuco, embora a posição em que poisam neste imagem não corresponda à minha memória. A Chincharabella anda sempre aos saltinhos, de cabeça baixa e rabo no ar que não é, nem de perto nem de longe, a pose dos dois que se vêem aqui abaixo.

Quanto aos chascos, cujo nome eu pensava não existir, há os cinzentos, os pretos e os ruivos. Olhei para todos e cada um, mas também não se encaixam nas minhas memórias.

Trouxe ainda uma foto de um Rabiruivo que conheço, embora não com esse nome. Se tivesse o rabo no ar, diria ser um carriço, assim fico-me só em dizer que o conheço mas não lhe sei o nome

Um parente do Chasco é o Rabo Queimado que podem ver aqui abaixo e me parece mais aquele que eu via a cantar o cha.cha.cha que lhe granjeou o nome de Chasco.

E por agora é tudo! Podem ir até à mata de Mindelo (aqui perto de onde eu moro) que é um dos melhores lugares recomendados para »observar pássaro». Andam por lá muitos "coca-bichinhos", tipo caçadores de borboletas, de máquina fotográfica (com grande objectiva) em punho, prontos a conseguir a foto da sua vida, aquela que os tornará famosos. Com tanta presença humana, às atantas, são os pássaros que mudam de residência!

terça-feira, 13 de junho de 2023

O pássaro, a pássara e a passarada!

 Pois é, há dias para tudo! Hoje, que é o dia de Santo António, padroeiro de Lisboa, eu devia falar dele ou das marchas que o PR foi ver e achou muito bonitas. Eu também achei, não sei explicar porquê, mas pareceram-me mais bonitas que em outros anos, mas posso ter estado desatentos no passado. Em vez disso resolvi falar da passarada que anda doida a fazer o ninho, pôr os ovos ou tratar dos pequenotes já nascidos e de bico aberto à espera de qualquer coisa que se engula.

Não liguem muito ao título que escolhi, pois, por momentos, fugiram.me os pensamentos para outro lado e escrevi algo que, talvez, nem todos compreendam.

Este passarito que vêem na imagem é um rabo queimado. Aparecem alguns aqui no meu quintal, embora haja mais melros, rolas e tarrotes (pardais do telhado), além de gaivotas que sobrevoam a horta, durante todo o dia, de olhos bem abertos, para ver se avistam qualquer coisa que lhes agrade. E aliviam a tripa, enquanto voam, pintando tudo de branco por onde passam.

Como todos os rapazes em idade escolar, eu também andei à procura de ninhos e fiz alguns esforços para conseguir chegar a alguns que eram quase inacessíveis. Rolas, gaios, pegas e corvos eram os mais raros e mais difíceis de encontrar e quando se encontravam, estavam em lugares, praticamente, inacessíveis, tipo, na crista dos pinheiros mais altos. Diziam que era possível pôr um corvo ou uma pega a dizer algumas palavras e andava tudo louco para tentar apanhar um ainda no ninho, pois a voar nunca os conseguiriam apanhar. No colégio de Coimbra, onde passei quatro anos da minha vida, havia uma mata como eu nunca tinha visto. Não havia pinheiros nem eucaliptos, como havia na minha terra natal, nem mato, daquele que pica as pernas a quem se mete pelo meio dele. Nessa mata do colégio era uma alegria ir aos ninhos, as árvores tinham ramos até ao chão e eram facílimas de trepar. Uma festa para este rapaz que nada o fazia desistir de qualquer empreitada por mais encrencada que parecesse.

Mas também não foi para descrever isso que aqui vim. Estou a olhar pela minha janela e vejo um passarinho, pousado no galho de uma árvore que me parece um «Chasco». Nunca ouviram esse nome? É natural, cada terra tem seu uso, cada roca tem seu fuso e até os nomes da passarada variam de terra para terra. O nome deste pássaro advém da sua forma de cantar, se se pode chamar cantar ao som que ele emite pelo bico fora. Um som que é mais ou menos assim - unchachacha, unchachacha - e enquanto emite esse som flete as perninhas até chegar com o peito ao chão. Na minha interpretação aquilo quer dizer - estouaqui, estouaqui - diz ele para avisar a fêmea que deve andar por perto. Se alguém conhecer e souber o nome científico deste pássaro, agradeço que mo digam.

Este pássaro faz o ninho no chão, entre tojos de mato, o que é uma alegria para as cobras que andam por ali à procura de alimento. Não era ninho que nós gostássemos de procurar, andar a remexer o mato picava os dedos e era preferível evitar. Os melros e as serezinas faziam os ninhos nos ramos das videiras e eram muito mais fáceis de abordar. E os melros eram pássaros muito finos, se a gente mexesse nos ovos que estavam a chocar, nunca mais lá voltavam. Abandonavam aquele e iam fazer outro ninho mais bem escondido.

E a chincharabelha alguém conhece? É um passarinho pequeno que tem as penas numa linda combinação de preto e branco a fazer lembrar as camisolas do Boavista, embora não seja aos quadradinhos, é mais às riscas. Na minha terra havia uma cantilena que as crianças cantavam, quando as viam aparecer na Primavera e que rezava assim: - Chincharabelha em cima do muro, treme-lhe o cu como um figo maduro!

Tudo isto era num tempo em que não havia Costa nem Marcelo, Galamba ou Medina. Se os políticos já eram malandros e ladrões não sei, mas pelo menos ninguém falava nisso, havia muito respeitinho. Na escola tínhamos o Salazar e o Carmona por cima do quadro negro e aprendíamos a cantar o Hino Nacional e também o da Mocidade Portuguesa. Era melhor, era pior? Sei lá, eu ia aos ninhos e o resto não me preocupava!