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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Outra vez «O Marlon»!

 


Há dias, fazendo jus ao meu novo Smartphone (com 10 Gigas de dados) digitei o número de telemóvel do meu camarada 16581 - João Manuel Azevedo, mais conhecido por NUNO ou MARLON. Não tinha grandes esperanças que me atendesse, pois quem perde o contacto durante 14 anos já deve ter sido riscado da memória.

Acho que já falei misto aqui, mas repetir não incomoda ninguém e ajuda-me a preencher o espeço. Eu quis reler o que se passou na altura em que nos encontramos, corri o blog (antigo) de fio a pavio e não encontrei nada. Mas como não sou de desistir à primeira dificuldade, hoje, voltei a peneirar o blog com mais cuidado e lá encontrei o que queria. Estava um ano mais cedo do que eu pensava, em Maio de 2009, e foi essa a razão de o não ter encontrado. Teria jurado que foi em 2010 que fui à Galiza ter com ele.

Tenho o mau hábito de não acrescentar etiquetas às minhas publicações e quando procuro não encontro nada. Desta vez não falha, vou encher isto de etiquetas!

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

O Marlon!

 Esta publicação deveria ser feita no Blog da CF2, mas como pouca gente passa por lá (e ainda menos comenta) vou fazer de conta que me enganei e não aceito críticas.

O 16581, de seu nome João Manuel Azevedo, era conhecido pelas alcunhas de NUNO ou MARLON. Marlon por ter uma ligeira parecença com o Marlon Brando, antes de este ter engordado uma brutalidade de Kilos. Do Nuno não sei a origem, nem ele me soube responder, quando lho perguntei, na última e única vez que estive com ele, desde Junho de 1965.

Fomos juntos para Moçambique, incorporados na Companhia de Fuzileiros Nº 2, num dia que não recordo do mês de Outubro de 1962 e vivemos grandes aventuras, durante os 30 meses que passámos naquela ex-colónia portuguesa. Até para Metangula, no Niassa, fomos juntos, quando a Frelimo desatou aos tiros, por aquelas bandas.

Quando, em 2008, decidi localizar todos os membros da Companhia e saber quem era vivo ou morto, deparei-me com o problema de ninguém saber dele, nem como desapareceu da Escola de Fuzileiros, no verão de 65. Houve até muito boa gente que o deu como morto, mas isso nunca me convenceu, pois são raros os casos em que o morto nunca mais aparece, Se tivesse morrido afogado no Tejo, como alguns aventavam, o seu cadáver apareceria a boiar em qualquer lado, mesmo que flutuasse até à Galiza.

Esta de ele flutuar até à Galiza saiu-me assim de repente, mas foi exactamente onde o fui encontrar, muitos anos depois. Cheio da Marinha até à ponta dos cabelos e acreditando que, logo que acabasse o curso em que ambos estávamos empenhados, ambos seríamos recambiados para África e, se o azar espreitasse, talvez para a Guiné, decidiu desertar. Percorrendo caminhos só dele conhecidos e com a ajuda de um irmão que trabalhava na Siderurgia Nacional - por onde ele também passara, antes de ingressar na Marinha, foi parar a uma aldeia do interior da Galiza.

Dado como desertor, situação militar que nunca prescreve, veio a Lisboa, depois do 25 de Abril, para regularizar a sua situação, uma vez que o governo português "socio-comunista" ofereceu essa possibilidade aos muitos jovens que tinha virado as costas a Portugal, por mor da Guerra Colonial. No entanto, contou-me ele, a confusão era tanta e as exigências de papelada tão difíceis de concretizar que regressou à Galiza sem nada ter feito e, como eterno desertor, lá continua a viver.

Quando lá chegou, nos idos de 1965, arranjou trabalho como simples operário numa fábrica de serração. Aos poucos foi ganhando a confiança do patrão, a tal ponto que, um belo dia, começou a namoriscar a sua única filha. E com ela se casou e formou a sua família. Ela era filha única e só teve uma filha também. A sua morte prematura deixou-o como herdeiro da serração, em que trabalhava, uma vez que o sogro também já tinha ido prestar contas a S. Pedro. A filha, entretanto, formara-se em Medicina e já trabalhava num hospital, em Vigo.

Viúvo e sem ninguém com quem se entreter nas horas vagas, arranjou uma amiga viúva e com ela e os seus descendentes - que o Nuno trata como seus verdadeiros netos - vive até à data. Que Deus lhe dê muita saúde e uma vida longa para disfrutar dessas benesses que a sorte lhe meteu pela porta dentro.

Ele era filho de mãe solteira - sabe Deus a carga negativa que isso carregava, nesses tempos de miséria - nascido numa aldeia na zona de Numão, perto de Fozcoa. Segundo me contaram, o seu pai era um empresário na área da Moagem e a sua mãe uma sua empregada. Ele passou os primeiros anos da sua vida trabalhando aqui e ali, primeiro para o seu pai e depois na agricultura, até que decidiu que aquilo não era futuro e seguiu os passos do seu irmão que tinha vindo para o Seixal e arranjado trabalho na Siderurgia do Champalimaud. E pouco depois, chegada a hora do Serviço Militar, concorreu à Marinha, onde nos encontrámos, em março de 62.

Ontem, na posse de um Smartphone com muitos minutos disponíveis, decidi marcar o seu número de telefone e ver se ele, ou alguém da família, me atenderia. Sempre tenho receio de ouvir uma má notícia, quando, ao fim de muitos anos de ausência, procuro por notícias de algum velho camarada. Mas a sorte estava comigo e ao fim de uns poucos toques ele atendeu e ouvi a sua voz. Ele que já nem português sabe falar, ao ouvir a minha voz reconheceu-me imediatamente. Devem ser tão poucas as ligações que tem com Portugal que eu serei um dos poucos a pensar nele neste início do ano em que ele festejará o seu 82º aniversário.

No próximo verão terão passado 13 anos sobre o nosso reencontro, em Monforte de Lemos e muita água passou já por baixo das pontes que atravessam o rio que passa por esta cidade galega, mas o NUNO está bem de saúde e ainda reconheceu a minha voz, vinda dum passado longínquo. Deixei-lhe um grande abraço e os votos de Bom Ano Novo. Terei que lembrar-me de lhe ligar de novo, no fim deste ano para reiterar os votos. E de mim, quem se lembra?


sábado, 7 de março de 2020

Numão (Freixo de)!

Nunca tinha andado pelo Alto Douro Vinhateiro, na margem esquerda do Douro. Era, portanto, uma área completamente nova para mim, quando por lá andei, no ano de 2008, à procura do rasto de um camarada fuzileiro que se evaporou da Escola de Fuzileiros, enquanto frequentava o Curso de 1º Grau, na Primavera de 1965. Houve quem dissesse que tinha fugido para a América, escondido nos porões de um navio mercante, outros defendiam a hipótese de ter dado o salto para França, o que estava na moda na década de 60 do século passado. E, finalmente, apareceram os adeptos de um acidente ou crime que o teria metido no fundo do Tejo e, há muito, estaria a fazer tijolo.


Hoje, li nas notícias que uma empresa mineira quer explorar ouro naquela zona, a poucos metros daquilo que faz parte da região sob protecção da Unesco.


Já tem uma licença provisória, mas agora pediu ao governo para uma definitiva para lavar mais de 180 mil toneladas de entulho, à procura do vil metal. Ainda descobrem algum antigo esqueleto do tempo da Idade do Cobre e são corridos de lá para fora, levando uma gorda indemnização que seremos nós a pagar.


Dizem que é uma das povoações mais antigas de Portugal. Pertence, hoje, ao concelho de Vila Nova de Fozcôa, mas nem sempre foi assim. Já foi importante, já foi independente, já deu cartas naquela região do Douro, onde, hoje, o vinho é rei. Talvez tenham sido os romanos que trouxeram para ali as primeiras videiras, antes do Afonso Henriques ter sequer nascido, e foram os ingleses que puxaram pelo negócio do vinho, durante o Século XVIII.


Bem, voltando ao princípio da história, não encontrei o meu camarada fuzileiro, mas recebi a confirmação de que ele era de facto nascido e criado na região de Numão. Acabei até por descobrir uma senhora que tinha sido a sua primeira namorada, antes de ele ter ido para a Marinha. Imagino que apanhou o comboio nesta estação da Linha do Douro, seguiu até ao Porto e dali até Lisboa.
Depois de muitas andanças (que já foram escritas e comentadas no meu antigo blog), acabei por encontrá-lo em Espanha, casado com uma galega, filha do patrão que lhe deu emprego, quando desertou da Escola de Fuzileiros.