Com 17 anos ainda por fazer arranjei (ou arranjaram-me) o meu primeiro emprego numa fábrica têxtil. Era aprendiz de apontador da «Casa do Pano», nome pomposo dado à secção que recebia o tecido acabado de sair dos teares. Os anos anteriores tinha-os passado na escola, nem sempre com boa vontade, e era chegada a altura de mergulhar no mundo do trabalho e ganhar o dinheiro que é preciso para pagar as contas, coisa com que as crianças não estão habituadas a lidar.
Nesse meu primeiro emprego, onde permaneci até me alistar na Marinha, conheci um homem já entrado na idade, alto e escanzelado, que operava uma das maiores máquinas da nossa secção. Para completar a apresentação desta figura, falta apenas dizer que o seu desporto predilecto era empinar o copo. A cada oportunidade que se lhe apresentava emborcava mais um copito e, em consequência disso, vivia sempre com um grãozinho na asa.
Lembrei-me desta história por causa de ter mencionado, na minha publicação de ontem, os garrafões de água que o pessoal das cidades se pode ver condenado a levar para casa, quando a torneira secar. Pois o Geraldo, assim se chamava o meu colega de trabalho, levava um garrafão de 5 litros para casa, sempre que o anterior estava vazio, para garantir o seu copinho ao almoço e ao jantar. Até aqui nada de especial, o que acabo de vos contar é comum a muitos homens deste país.
As coisas começam a ser diferentes, quando eu vos contar que a mulher do Geraldo gostava da pinga tanto como ele. E durante o dia, quando sentia a goela seca, ia até ao garrafão e bebia um golito. O marido ao chegar a casa, especialmente, à hora do jantar, encontrava o garrafão um pouco mais vazio do que ele esperaria. Começou por perguntar à mulher se ela bebia na ausência dele, às refeições cada um tinha direito à sua medida, mas ela negou sempre. É claro que com a continuação as coisas se foram agravando e o garrafão durava cada vez menos. Se nos princípios dava para uma semana, agora mal chegava para cinco dias.
Para se livrar das dúvidas, começou a fazer uma marca no nível do vinho, no fim de cada refeição e, é claro que em três tempos apanhou a prevaricadora. E aí tomou uma decisão para se livrar das dúvidas de uma vez por todas, comprar um garrafão de vinho para ele e outro para a mulher. E foi-a logo avisando:
- Vê lá se controlas o que bebes, pois só te compro outro quando o meu se acabar também. Se beberes mais depressa do que eu, ficas à sede até eu esvaziar o meu.
A malta da fábrica que sabia, não sei muito bem como, de toda esta história, perguntava-lhe:
- Oh, Geraldo, como é que tens a certeza que ele não continua a assaltar o teu garrafão?
Ele, sem se atrapalhar nem um pouquinho, respondia:
- Eu não sou trengo (sinónimo de parvo), vou fazendo umas marcas no garrafão e quando suspeito que ela mo assaltou, vou ao dela e faço-lhe o mesmo.
Cá para mim que também não sou trengo nenhum, acabou por ficar tudo na mesma, como quando tinham em casa um só garrafão, ora bebia ela do dele, ora bebia ele do dela.
Ora, porra para a solução que o Geraldo arranjou para resolver o seu problema!




