Não sou, nunca fui um grande fã do 25 de Abril! A revolução pode ter acabado com a Guerra Colonial e com o regime marcelista (o salazarista já tinha passado à História, em 1968), mas abriu a porta a muita gentinha sem qualquer valor que passou a viver à conta do sistema. Comunistas, bons e maus, que fizeram de Portugal o seu feudo, até ao 25 de Novembro. Alguns ainda andam por aí disfarçados de Sociais democratas.
Pessoalmente, nunca fui de políticas, fui educado em escolas bastante rígidas e nunca senti dentro de mim a necessidade de me revoltar contra quem quer que fosse. Embora fosse amigo de protestar contra tudo e contra todos, quando me sentia injustiçado, nunca me senti inclinado para a política nem para me meter em confusões por causa dela.
Lembro-me agora que já havia "bufos" entre os fuzileiros, quando formámos a CF2 e seguimos para Moçambique, em 1962. Havia uma mão-cheia de alentejanos nessa Companhia e, seja lá por que razão for, a PIDE andava sempre de olho neles. Um deles, rapaz habilidoso com a bola que era natural de Évora, passou uns meses no Niassa e no regresso foi enviado para a Metrópole sob prisão. Eu nunca percebi muito bem a razão para tal, mas ouvi dizer que tinha entrado em choque com o comandante do Posto de Rádio de Metangula (nesses tempos remotos era assim que se chamava) e que ele fizera queixa dele no Comando Naval. Coisa para apanhar uns dias de prisão, não mais que isso, mas foi parar ao forte de Elvas.
Pessoal e profissionalmente, fui prejudicado pela Revolução dos cravos. Eu ganhava um salário principesco (cerca de 5 vezes o salário do pessoal que comandava) e quando foi estabelecido o salário mínimo nacional comecei a ficar para trás e só recuperei, perto do ano 2000, quando me promoveram a director de serviços. Quanto às minhas responsabilidades na empresa foi pior ainda, os sindicatos e as comissões de trabalhadores dentro da empresa puseram-me a alma no inferno. As greves complicaram-me a vida e a reacção europeia ao governo comunista de Vasco Gonçalves quase levaram a empresa à falência. Só no exercício de 1981 conseguimos voltar aos lucros e respirar de alívio.
A liberdade pode encher a alma, mas não enche a barriga de ninguém e com certeza Portugal não ficou mais rico por ser mais livre. Houve um período de desafogo na casa dos portugueses, onde pais e filhos trabalhavam e, assim do nada, começou a entrar dinheiro a rodos. Lembro-me de uma família a morar perto de mim, em que pai, mãe e 3 filhos todos trabalhavam e, em 1976, quando foi fixado o salário de 4.400$00, fizeram uma festa. Todos juntos, eles traziam para casa pouco mais de 5 contos e naquele mês, o primeiro pago com o novo salário, quase trouxeram 20 contos.
Mas, depois desse início brilhante, a inflação foi comendo os ganhos e os salários não acompanharam o aumento do custo de vida, o que fez com que alguns anos mais tarde estivesse tudo quase como antes da revolução. Exceptuando, é claro, aquilo que se ganhou em liberdade, férias e outras regalias que os sindicatos conseguiram conquistar com muita luta contra os seus patrões.
A minha política foi sempre o trabalho, nunca tive que pedir um aumento ao meu patrão, ele aumentava-me aquilo que achava justo e quando me perguntava se eu achava bem, eu respondia que ele lá saberia o valor do meu trabalho. Se um dia me sentisse indesejado ou mal pago, punha-me logo a andar. Tal como fiz no primeiro emprego que tive após sair da Marinha, o patrão disse que não me podia pagar mais de 1.500$00 por mês, senão todos os outros trabalhadores da empresa exigiriam o mesmo, ao que eu lhe respondo que por menos do que o dobro disso não trabalhava. Ele encolheu os ombros, como quem diz que eu é que sabia da minha vida e eu pus-me a caminho da Alemanha, no dia 1 do mês seguinte.
A nossa sorte está escondida num canto qualquer e se não procurarmos bem não a conseguiremos encontrar. Uns meses depois de estar a trabalhar no duro, numa fábrica do sector metalúrgico, soube do falecimento do Dr. Oliveira Salazar, mas isso não me deixou mais feliz ou infeliz, pois que desde que o Marcelo Caetano tomou o poder, em 1968, já as coisas vinham mudando, em Portugal. A única coisa que ele não teve habilidade para negociar foi a descolonização, imitando os franceses, ingleses e alemães que estavam a dar a liberdade às suas colónias africanas.
Regressei da Alemanha para trabalhar na indústria dos trapos, onde me iniciara depois de deixar a vida de estudante, e nela fiquei até à reforma que foi um pouco antecipada pela situação de pré-falência da empresa minha empregadora. Era uma firma de capital estatal , do Reino da Holanda, que foi vendida a uma sociedade formada pelos altos quadros da mesma que, passando de empregados a patrões, continuaram a geri-la o mais bem que sabiam, mas não foi suficiente para a salvarem do abismo.
Passando em revista esses anos, desde que entrei na Marinha até vir para a reforma, aos 60 anos, não encontro nada que possa dizer que melhorou, estrondosamente, depois de passar a viver em liberdade. Na verdade, eu sempre vivi em liberdade, quando me sentia preso num lugar mudava-me para outro, onde me sentisse melhor. Acho que é essa a verdadeira liberdade, não ser obrigado a viver num lugar, ou numa situação, contrário à sua vontade!
Viva a liberdade!
























