É como se eu corresse a maratona e não avistasse um único atleta a perseguir-me!
O meu pensamento seria que todos deviam ter desistido, pois não me considero tão bom corredor que os deixasse tão lá para trás!
Refiro-me, é claro, aos meus "colegas" que se dedicam a escrever em blogs, como eu tenho vindo a fazer desde 2008, ano em que descobri a blogosfera e aprendi a surfar a sua onda!
A minha primeira motivação não foi a escrita por si só, de escrever já estava farto por razões profissionais, foi um meio de tentar localizar, saber notícias, dos antigos camaradas da tropa e da Guerra Colonial.
Tudo começou em 2002, ano em que recebi uma carta a convidar-me para um almoço convívio, em Sintra. Essa carta foi endereçada para a morada que eu tinha dado, quando me apresentei à inspecção, no Corpo de Marinheiros, onde os meus pais, felizmente, ainda vivos a receberam. O carteiro deve ter perguntado se eu morava ali e o meu pai deve ter respondido que não, mas faria a carta chegar às minhas mãos.
Três alunos marinheiros da Escola de Vila Franca de Xira tinham-se juntado e formado uma comissão para localizar os cerca de 900 camaradas do recrutamento de Março de 1962. Um desses 3 era casado com uma senhora que trabalhava no Ministério da Marinha e foi por intermédio dela que tiveram acesso aos endereços de todos nós. É claro que 40 anos depois, já alguns tinha falecido e a maioria mudara de endereço. Mas tal como aconteceu comigo, a grande maioria das cartas encontrou o destinatário.
Essas 900 praças dividiam-se em dois grupos, em primeiro e destacado lugar todos aqueles que tinham seguido a carreira militar. Em segundo lugar, os que tinham abandonado a Marinha logo que cumprido o prazo obrigatório, dividiam-se também em dois grupos. Em primeiro lugar os que tinham gostado da experiência e sentiam saudade desses tempos da juventude e dos amigos que tinham deixado para trás. Os outros, talvez a maioria, não tinham saudades nenhumas e estavam a marimbar-se para esses almoços que só lhe traziam despesa e perda de tempo.
Muitos desses camaradas tinham emigrado, logo que entregaram os seus pertences, em Alcântara, e viraram as costas àquele curto período de 4 anos da sua vida. Alguns desses só tomaram conhecimento da coisa quando se reformaram e retornaram ao seu país de origem. Lá foram aparecendo e relatando as suas aventuras, mais bem ou mal sucedidas, e sempre com mais saudades da família que tinham deixado lá fora (filhos e netos) do que dos velhos camaradas que nem conseguiam reconhecer naqueles velhotes barrigudos, de óculos encavalitados sobre o nariz e falta de cabelo no cocuruto.
A grande maioria dos que apareceram nesse almoço de Sintra eram da Escola de Alunos Marinheiros, da minha Escola de Fuzileiros apareceram cerca de 25. Metade deles reconheci-os logo, a outra metade, onde se incluía um dos meus amigos mais chegados, estava de tal modo mudada que foi necessária uma identificação particular e recurso a fotos antigas para acreditar no que os olhos viam. Daí surgiu a ideia de fazer também um almoço convívio só para fuzileiros, pois aqueles "gajos" de Vila Franca nunca os tínhamos visto mais gordos.
E recaiu em mim a escolha para pôr em prática essa missão. Eu mexia-me bem no mundo dos computadores, não tinha problemas de escrita e já tinha dado umas voltas pela Net (World Wide Web) que serviria para os nossos futuros contactos. A primeira grande dificuldade seria arranjar uma lista de todos os camaradas, em especial aqueles que tinham estado connosco no Ultramar. No início não foi fácil, apareceu um que apresentou uma lista manuscrita com cerca de metade dos que fizeram parte da CF2 (Companhia de Fuzileiros Nº 2) e por aí se começos.
Pouco tempo depois apareceram aqueles 4 livros sobre a participação dos fuzileiros na Guerra Colonial, compilados (com muitos erros) pelo Comandante Sanches de Baena e alguém me fez chegar um exemplar às mãos para me ajudar na minha tarefa. O nosso primeiro convívio aconteceu em 2008 e teve lugar num restaurante da Serra D'Aire, onde compareceram cerca de 125 pessoas, entre filhos da escola e respectivas famílias.
Depois dessa data, continuei a tentar repetir a cena, uma vez por ano, trazendo mais gente, em especial, aqueles que tinham faltado ao primeiro. Muitos não sabia ainda por onde andavam, nem tão pouco se eram vivos ou mortos. Escrevi muitas cartas, fiz muitos telefonemas, em conjunto com outros camaradas que se ofereceram para me ajudar, andei de terra em terra à procura dos que faltavam.
A última grande viagem foi até uma localidade no interior da Galiza, onde conseguimos localizar um desses camaradas que, em Junho de 1965, enquanto decorria o Curso de 1º Grau na Escola de Fuzileiros, tinha desertado e ninguém conseguia explicar o que se passara com ele. Uns defendiam que tinha morrido, outros que fugira para o Brasil e por aí fora. Ele tinha um irmão que trabalhava na Siderurgia Nacional, ali do outro lado do malagueiro, em frente à Escola de Fuzileiros, mas isso ninguém sabia na altura. E mesmo que soubesse, talvez não resultasse em nada, pois ele teria medo de delatar o desertor. Nesse tempo a PIDE ainda estava no auge do seu poderio e não se podiam correr riscos.
Por essas e por outras é que eu fui entrei na blogosfera e tentei de tudo para que a minha voz chegasse a todos os continentes e aos olhos e ouvidos desses emigrantes que ninguém sabia por onde andavam. Tive notícias de uns que viviam em diversos países da Europa (França, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo) e outros que tinham ido mais longe, como Brasil, Estados Unidos e Canadá. Alguns, mas poucos, consegui que viessem a um desses almoços, de outros consegui o endereço de e.mail para envio de fotos, etc., mas a maioria nunca apareceu.
Uma das primeiras tarefas foi separar os vivos dos mortos. Cheguei a ir a vários cemitérios confirmar que estava lá sepultado este ou aquele camarada que fazia parte da lista e nunca respondera ao meu chamamento. A minha mulher acompanhou-me algumas vezes e achava que eu devia ter um parafuso desapertado por andar à procura de alguém de quem me tinha separado há perto de 40 anos e de quem nunca mais tivera notícias.
Mas era a minha missão e cumpri-a o melhor que pude, enquanto tive pernas para isso. Com o tempo as presenças foram-se reduzindo a um mínimo que já não justificava o meu esforço e decidi parar. O último grande almoço, aconteceu em 2016, num restaurante de Vila Real de Trás-os-Montes. Poucos transmontanos tinham frequentado esses convívios com a desculpa que eram sempre muito longe do lugar onde viviam. Resolvi aplicar aquele princípio que refere que "se o Maomé não vai à montanha, leva-se a montanha a Maomé.
E avisei toda a gente que aquela era a minha despedida como organizador de convívios, se alguém estivesse interessado em continuar eu daria a minha ajuda. Mas como sempre acontece nestes casos, ninguém deu um passo em frente. Para responder a um pedido que não tive maneira de recusar, organizei um pequeno encontro, em Fátima, no verão do ano passado, em que estiveram 30 pessoas, mais familiares que fuzileiros!
Entretanto, o tempo não para e muitos daqueles que participaram nesses convívios já partiram deste mundo. Até isso serve para eu ir alimentando a blogosfera, comunicando a quem por isso se possa interessar, as datas e nomes daqueles que vão caindo pelo caminho. Somos cada vez menos, os mais novos já completaram os 80 anos de vida (no meu caso 82) e não faltará muito até que o último parta ou a minha voz se cale para sempre!
O homem da maratona