A Praça do Almada é o centro da cidade onde eu vivo. Ali existe a Câmara Municipal, o coreto da música, a estátua do Eça e outras coisas mais, como bancos, cafés e restaurantes que dão vida à cidade. Sem apoio técnico que me permita fundamentar a minha afirmação, eu diria que a "praça" está pouco acima do nível do mar, menos de 5 metros, e em dias de muita chuva, estando a maré cheia, os esgotos não conseguem entrar no mar, deixando o lugar com cerca de 20 centímetros de água, o suficiente para provocar o caos no trânsito.
Ao ver o que as depressões Ingrid e Kristin fizeram em Portugal e com as constantes referências à subida do nível do mar, começo a ficar preocupado com a minha situação. Costumo dizer à minha mulher que nós vivemos no céu e que aqui, no cimo de um enorme penedo onde foi erigida, há muitos anos, a Igreja Matriz da Póvoa, nunca o mar nos virá incomodar. Mas com o mar mais alto e ondas de 10 metros de altura, eu já não tenho a certeza de nada.
Se o mar invadir a avenida da marginal, como já aconteceu mais que uma vez, dali até à Câmara Municipal é sempre a descer e começo a imaginar as ondas a bater nas pernas do Eça que está ali plantado, com os seus livros, no topo leste da praça. O desnível desse lugar até à minha casa não chega a 10 metros, por isso já não me sinto assim tão seguro.
Talvez tenha que comprar um bote para ir até ao centro e voltar a casa e aí não sei como a minha cara metade se comportará, pois ela não sabe nadar e tem pavor à água. Para piorar as coisas, a porta das traseiras, ao fundo do meu quintal, está ao nível da Praça do Almada e nunca servirá de escapatória, se o mar decidir avançar até ali. Se te vires em perigo, digo eu à minha mulher, corre até ao adro da igreja, pois lá o mar nunca chegará!
Por volta do ano 1000 da nossa era, nos tempos da Dona Mumadona Dias, a Câmara da Póvoa estava cerca de 2.000 metros para o interior, na actual freguesia de Argivai, também conhecida por freguesia do Anjo (S. Miguel) e daí até à rebentação das ondas do Atlântico só havia dunas. Só no tempo de D. Dinis, no século XIV, se começou a ocupar esses terrenos que, até aí, apenas albergavam umas pequenas barracas em que os pescadores guardavam os seus apetrechos marítimos.
O mar acabará, mais cedo ou mais tarde, por reclamar o espaço que lhe roubaram, diz o povo. E todo o litoral poveiro, como em muitas outras cidades à beira mar, está coberto de prédios que ultrapassam os 10 andares de altura. Ao olhar para as imagens de Águeda ou Alcácer do Sal que as televisões nos têm mostrado, eu consigo imaginar o pessoal que mora nessa zona a andar de barco, em vez de automóvel para ir ao mercado, ao Café ou à igreja.
Podemos viver como em Veneza, deixando as caves e o rés-do-chão debaixo de água e morarmos nós do primeiro andar para cima. Só não vejo solução para os esgotos que debaixo de água não funcionarão e aí teremos a trampa a entrar em casa em vez de sair. Abandonar aquele casario todo, não acredito que vá acontecer, o povo pagou fortunas aos bancos por aqueles apartamentos e nunca aceitará ficar sem eles. Alguma solução terão que inventar para a questão dos esgotos!
Mas, para ser sincero, levará ainda muitos anos para isso acontecer, talvez um século ou dois, e eu não estarei cá para ver isso. Talvez nem os meus filhos e netos, senão começaria a recomendar-lhes que fossem morar para longe do mar. Agora que a Póvoa vai ter problemas, não tardará muito, pode-se adivinhar. O clima não está de modo a facilitar as coisas, cada vez há tempestades mais violentas, chove descontroladamente ou cai neve que entope tudo. Nomear uma grande equipa para a Protecção Civil para pouco serve, além de aumentar os custos do município.
Como diz aquele velho ditado que eu nunca esqueço: - Se vires as barbas do teu vizinho a arder põe as tuas de molho!



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