Escusava de fazer esta afirmação, pois vocês já me conhecem de ginjeira e sabem quase tanto como eu a respeito dos meus sentimentos. Como ia desatar a falar do mui conhecido dos portugueses, Jerónimo de Sousa, foi só para avisar que não é para fazer publicidade a essa cambada que gasto o meu tempo e encho este espaço de letrinhas, umas encavalitadas nas outras que, espero eu, vos levem alguma alegria.
Quanto ao Jerónimo, a história é muito antiga, começou no ano de 1743, quando ele nasceu no mesmo lugar da mesma freguesia que me viu também nascer, dois séculos e uns quantos meses mais tarde. Ele foi o patrono do ramo feminino da minha família, avô da minha mãe na sétima geração. O seu apelido era Ferreira, o qual não chegou até mim, porque durante o século XIX pegou uma moda de serem as mulheres a transmitir o seu apelido aos descendentes.
O Jerónimo de Sousa era o tal comunista que me fazia ferver o sangue, cada vez que o via na televisão. Como a minha mãe, tal como a sua também, além da avó e do bisavô eram todos Sousa, eu parti do princípio que o meu avô Jerónimo teria também esse apelido. Lá está o meu avô Jerónimo a dizer asneira outra vez, pensava eu mal o via aparecer no ecran do televisor.
Ele foi Secretário Geral dos comunas de 2004 a 2022, mas já era deputado no nosso Parlamento desde o princípio de Dezembro de 1979. Foram muitos anos a ouvir aquele cromo que sucedeu a outro cromo que só era melhor que ele por ser formado em Direito, o Carlos Carvalhas, mais conhecido pela alcunha de "Cassete Carvalhas". Esse foi o escolhido por Álvaro Cunhal para lhe suceder, assim ao modo como acontece nos regimes monárquicos. Tal e qual como o Jerónimo escolheu outro ainda mais parvo que ele, o Raimundo, para lhe ficar com o lugar e que quase já não tem companhia na sua bancada do Parlamento.
Fico contente por ver que os parvos estão a diminuir em Portugal, embora tenha aparecido uma outra seita de palermas, ou melhor, duas que são conhecidas por comunas-caviar e comunas-letrados, uma quase a desaparecer do mercado, desde o abandono da Mortágua e a outra a subir impulsionado pelo Rui que passa os seu dias a fossar nos arquivos da Torre do Tombo e sabe de História muito mais que eu.
Mas basta de conversa comunista, eu queria era falar do meu avô Jerónimo que nasceu muitos anos antes da doutrina comunista tomar conta da Europa. Aquela casa, em que fui defumado, quando era criança, era pertença de um seu bisneto que se viu forçado a vendê-la por não ter outros meios de sustentar a família. Vendeu a casa com reserva de vida, isto é, o comprador só podia tomar conta da propriedade, o que aconteceu por volta de 1940, depois de ele e a sua mulher terem morrido.
Nessa altura, apareceu por lá o Sr. Laurindo exigindo que os remanescentes moradores abandonassem a casa. Ai, não pode expulsar-nos, pois não temos para onde ir, lamentaram-se eles! O homem que era mesmo um bom coração, propôs-lhes que construíssem uma pequena casa - com o resto do dinheiro que lhes sobrara da venda feita pelos seus pais - num terreno que ele lhe ofereceria, separando-o de uma propriedade maior, ali a uns curtos 200 metros de distância.
A proposta foi aceite com alegria, pois ficariam a viver no mesmo lugar que era o lar de todos, ou quase, descendentes do avô Jerónimo. Em três tempos, foi levantada uma casinha em tijolo, com quatro pequenas divisões e uma cozinhita ao lado com o chão em terra batida e uma pedra de granito de grandes proporções para servir de lareira. Com o telhado em telha de barro francesa, a casa estava uns bons degraus acima daquela que abandonaram.
O casal e os seus 3 filhos pegaram nas trouxas e mudaram-se para a casa nova que tinha, ao lado, uma pequena horta com cerca de 400 metros quadrados. Foi o que lhes sobrou de uma herança que desde a morte do Avô Jerónimo foi sendo dividida pelos seus filhos, netos e bisnetos, com uma fatia cada vez menor a tocar a cada um. Alguns anos mais tarde e depois de analisar a sua situação e ver que nada lhe tinha sobrado para garantir a criação dos filhos, o Sr. António de Sousa, decidiu emigrar para o Brasil e tentar a sua sorte.
Ainda fui amigo de brincadeira e colega de estudos do filho mais novo, mas a diferença de idades era grande e depressa lhe perdi o rasto. Dei com ele, muitos anos depois, por alturas do 25 de Abril, ao balcão do Banco Português do Atlântico, aqui nesta cidade onde moro, transferido da Caixa Geral de Depósitos, noutra cidade, onde tinha iniciado a sua carreira de bancário.
Quando lhe perguntei se tinham tido notícias do pai disse-me que não, mas contou-me que tinha recorrido ao tribunal para o declarar morto, pois havia coisas que precisava de resolver (heranças) que obrigavam à apresentação de uma certidão de óbito. Uns bons 20 anos mais tarde, eu soube por uma sua sobrinha (amiga do Facebook) que o velhote se tinha casado de novo, no Brasil, e constituído uma grande família. Quem lhes trouxe tal notícia é que eu não consegui saber!

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