Está frio e cai neve por essa Europa fora e vou falar disso na minha crónica de hoje, mas antes tenho que fazer uma pequena referência ao desporto-rei e ao meu Benfica que continuará na rua da amargura, enquanto o FCP não perder. Ontem, nos Açores, esteve quase garantido um empate e a perda de 2 pontos, mas o guarda-redes ilhéu decidiu oferecer a bola ao Samu, dentro da área, e ele fez a sua obrigação rematando-a para dentro da baliza deserta. Se isto não foi planeado, pelo menos parece!
E, falando de neve, várias vezes fui à Serra da Estrela, quando os meus filhos eram pequenos, só para chapinhar na neve e ficar com as mãos e os pés congelados. Algumas vezes estavam as estradas todas fechadas pela GNR e aventurei-me por atalhos que conhecia para chegar até à neve. Só uma vez assistimos à queda de neve, nas Penhas Douradas.
Mais ou menos à mesma altitude das Penhas Douradas fica a lagoa do Rocim, onde por vezes fui nadar nas férias de verão. No inverno neva lá forte e feio e uma vez entrei lá na maior e tive que ser rebocado para sair para a estrada que liga Gouveia a Manteigas. Do Sabugueiro até ao Rocim há um atalho que conheço bem e usei algumas vezes, quando a GNR fechava a estrada nesse ponto. A estrada que desce do Rocim até Manteigas nunca é encerrada e era a minha escapatória em viagens de serviço.
Antes de transformarem o IP5 numa autoestrada, a subida para a Guarda era um local crítico, Logo que fechavam a estrada de ligação entre Seia e a Covilhã, essa era a estrada que nos restava, mas a GNR fechava-a logo que o primeiro camião começasse a patinar e a ficar atravessado na estrada. Nas minhas viagens de serviço, eu tinha que chegar à Covilhã a qualquer custo, pois ali se situavam os maiores fornecedores de lanifícios de quem a minha empresa dependia para continuar a laborar.
Depois de uma tarde de trabalho, em Seia, aconselharam-me a pernoitar ali, em vez de seguir para dormir na Covilhã, como era meu costume. Talvez amanhã de manhã o tempo esteja melhor e possa passar pela Guarda sem risco, diziam os conselheiros do costume que estavam fartos de resgatar aventureiros que ficavam atolados na neve.
De manhã estava ainda pior, pois nevara toda a noite e todas as estradas da serra estavam encerradas. E eu ali entalado sem saber o que fazer da minha vida. Decidi furar por onde a GNR não pusera nenhuma patrulha a proibir a passagem, a estrada que sobe pela encosta de poente, até às Pedras Lavradas e bordeja a serra pela encosta sul, até Unhais da Serra. O primeiro troço, até à Loriga foi mole, fiz aquilo sem patinar uma única vez.
Aí parei, fui a uma padaria tomar um cafezinho e pedir informações. A coisa não está fácil, disseram-me, mas o padeiro passou agora mesmo por aí acima e se ele não voltou para trás é porque conseguiu passar. Cuidado com aquela ladeira a seguir a Valezim, disseram-me, engate a segunda no início da ladeira e não deixe de manter uma velocidade constante, até chegar lá acima e no travão nem toque, senão nunca mais sai de lá.
Assim fiz, eles sabem mais daquilo que eu, e cheguei ao topo da ladeira sem problemas. Dali até às Pedras Lavradas ainda sobe muito e cada vez se fica mais longe da civilização. O meu receio era ficar atascado e ter que regressar a pé até uma das povoações para arranjar refúgio ou ajuda para sair dali. Com uns sapatinhos de sola fina (nesse dia jurei que compraria umas botas próprias para a neve e as levaria na bagageira sempre que fosse para aquelas bandas, mas nunca o fiz) havia de ser o bom e o bonito para fazer uma dúzia de quilómetros.
Eu conhecia bem aquela estrada e ia, mentalmente, calculando quantos quilómetros já andara, depois da última aldeia e quanto faltaria para a próxima. A distância máxima andaria por volta dos 30 Kms e se parasse teria que decidir em qual sentido seguir, qual das aldeias estaria a menos de 15 Kms. Felizmente, consegui atingir o ponto mais alto daquela estrada, onde há um desvio para a direita que vai dar a Vide e que eu usaria para sair da serra se não pudesse continuar.
Havia muita neve naquele lugar, mas a estrada é larga e plana. Soprava um vento forte do sul que fazia rodopiar farrapos de neve a toda a volta do carro. Senti o fundo do carro raspar na neve da estrada, mas como ela estava fofinha, não tinha ainda congelado, enfiei o carro por um rodado traçado na neve por alguém que seguia na minha frente, aproveitando de a neve estar mais compacta e dura. Como eu esperara o carro portou-se bem e saí daquele ponto perigoso, entrando num troço de estrada sem sinal de neve.
Parei logo o carro, para o deixar arrefecer um pouco, pois andara cerca de meia hora sempre em segunda e o motor começava a queixar-se do sobreaquecimento. Um quarto de hora depois reiniciei a marcha e com o aumento da velocidade o radiador voltou à temperatura normal. Dali até Unhais foi sempre a abrir, com raros trechos cobertos de uma fina camada de neve.
Em Unhais havia uma enorme fábrica que planeara visitar no dia seguinte, mas devido às circunstâncias decidi aproveitar para despachar a entrevista que tinha marcado e depois daria um jeito de reordenar a minha agenda. De onde vens, perguntaram-me, as estradas estão todas cortadas! Venho de Seia pelas Pedras Lavradas, respondi-lhes. A sério, admiraram-se com a minha ousadia, desde ontem, ao fim da tarde que não passa ninguém por essa estrada!
Mas passei eu e compreendi o risco da minha aventura, depois das notícias da manhã e dos avisos das autoridades para ninguém se fazer à estrada naquelas circunstâncias. Ainda nesse dia, ao fim da tarde, ia eu a caminho de uma outra fábrica que ficava dentro da cidade da Covilhã, num ponto bastante alto e numa estrada sem saída, quando o carro começou a derrapar, deslizando para a esquerda até bater com as rodas no passeio.
Deixei-o ali ficar e fiz a pé os cerca de 500 metros que me faltavam para chegar ao destino e regressei com o pessoal da fábrica ao centro da cidade, onde pernoitei. De manhã, vieram buscar-me e ajudar a pôr o carro em andamento para eu poder terminar o trabalho desse dia. Ao fim da tarde o tempo tinha aliviado e estive tentado a regressar pelo alto da serra, pois os limpa-neve tinham aberto a estrada até à Torre. Mas, como de aventura já chegara o dia anterior, fiz os 40 Kms até à Guarda e regressei pelo velho IP5 que não era grande coisa, mas era a única estrada garantida para chegar ao litoral.
N.B. - A encerrar, deixo a informação que acabei de ver na TV. O Rúben Amorim acaba de ser despedido do Man. United. Imagino que isso estava no pensamento do presidente do Benfica, trocar o Mourinho pelo Rúben, a partir de 1 de Julho, seguindo aquele para a Selecção Nacional que que assim diria adeus ao espanhol Martinez!


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