Recordo-me da loucura que era, quando os cartazes expostos pela cidade anunciavam mais um filme dele. Era difícil arranjar bilhete e os malabaristas do costume apareciam cedo nas bilheteiras e compravam uma dúzia para, mais tarde venderem ao dobro do preço. Aqui, na Póvoa, o rei desse negócio era o Carlos que dava pela alcunha de Bruxo.
Algumas vezes recorri a ele para arranjar entrada. Por ser para ti, disse-me uma vez, levas o bilhete ao preço da bilheteira! Como já era cliente antigo e conhecia o Bruxo de outros carnavais, eu tinha direito a essa atenção da parte dele. Os filmes do Bruce Lee deram-lhe algum dinheiro a ganhar e depois dessa moda arrefecer vieram os filmes indianos que esgotavam sempre e continuaram a render bom dinheiro ao Bruxo que morreu, há meia dúzia de anos sem nunca ter arranjado um emprego.
Ele sempre viveu de estratagemas. Depois do fecho do comércio, ele dava uma volta pelas lojas e recolhia o cartão que eles punham à porta para ser recolhido pelo camião do lixo. Depois ia vendê-lo a um sucateiro que tinha um armazém para os lados onde ele morava. Um dia encontrei-o a fazer trabalho de jardinagem em casa de um vizinho meu e perguntei-lhe: - Finalmente, arranjaste um trabalho? Não, vim só dar uma ajuda ao meu irmão que tem mais trabalhos contratados do que consegue fazer.
Acho que ele tinha vergonha de trabalhar! Sempre foi livre, nunca quis criar laços com ninguém, nunca namorou nem se casou. Depois da morte dos pais, já burro velho, ficou a viver com uma irmã, nessa casa que foi dos seus pais. Ela dava-lhe uma ajuda, tratava-lhe da roupa e assim viveu, como uma espécie de sem abrigo, até que a morte o levou, livrando-o a ele e à irmã de maiores trabalhos.
E é assim a minha vida de contador de histórias, o Bruce e o Bruxo foram a inspiração para a minha publicação deste sábado que é também o último dia do mês!
Vi os filmes dele na minha Luanda no cinema Miramar!
ResponderEliminarBeijos e um bom dia!
Esta história faz-me lembrar o Zé Manél um filho da Escola e da Terra. Desertor e sempre na malandragem soube o ano passado que o encontraram morto no carro onde vivia à entrada da Quinta dos Peixinhos em Lisboa.
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