terça-feira, 20 de junho de 2023
Prometeram chuva e veio o sol!
domingo, 18 de junho de 2023
Hortas, pomares e jardins!
O meu pai era agricultor, quem fazia a horta, na casa onde nasci, eram duas mulheres, a minha mãe para as tarefas mais pesadas e a minha avó para as mais leves, pois a idade já lhe pesava nos ombros. Os homens daquele tempo tinham trabalhos mais importantes para fazer e consideravam os cuidados a ter com a horta coisa de mulher. Não acho que esteja bem ou mal, é uma questão de repartir as tarefas por quem pode e tem tempo para as executar. Os homens do Minho, nesse tempo em que a agricultura - a que chamavam lavoura - constava de cultivar pão (milho) e vinho (verdinho daquele que a gente gosta), tinham o ano todo ocupado. Na Primavera as sementeiras, no Outono as colheitas. Durante o inverno as terras davam erva para alimentar vacas e bois que eram verdadeiras máquinas agrícolas. E as videiras, logo que caia a folha, era preciso podá-las, amarrá-las, preparando-as para o abrolhamento que pouco depois de aparecer já requeria tratamentos à base de sulfato de cobre, cal e enxofre.. Depois era esperar que as uvas começassem a pintar, enquanto se lavrava a terra para as grandes sementeiras de milho que era a base da alimentação das pessoas do Minho.
Na horta semeavam-se ou plantavam-se hortaliças, cebolas e alhos e em entrando Março havia que semear a batata que alimentaria a família durante todo o ano. Não era nada complicado, batatas e hortaliças cozidas e pão de milho para atestar o estômago. Era assim, antigamente, a pobreza era a moeda corrente e o conduto sá aparecia na mesa do rico. O pobre tinha direito a um frango ou um coelho, em dia de festa e pouco mais. Quando o mar se mostrava nosso amigo e deixava os pescadores encher o barco até à borda, ainda chegavam à aldeia sardinhas a «3 à croa» ou carapaus a menos de 1 escudo cada e nessas alturas havia festa em casa. Meia sardinha em cima de uma fatia de broa era comum em casa de pobre. Era comum salgar sardinhas, quando elas estão bem gordas, no fim do Outono, para servir de merenda a quem trabalha no campo, nos dias de inverno. Broa, sardinhas e vinho à discrição eram o luxo que se podia permitir, uma vez por outra, q quem se esfalfava a trabalhar a terra.
Mas, na prática não foi disso que eu vim aqui falar. Plantar árvores, de fruto e não só, está mais no meu modo de ver a coisa. Tal como o meu pai, acho que a horta devia ser feita pela minha mulher, mas ela não é de sujar as mãos e sobra tudo para mim. Ainda lhe fiz uma proposta de dividir o terreno em parcelas e, enquanto eu tratava da horticultura, ela trataria do jardim, mas ela disse logo que era muito melhor a colher as flores do que tratar das plantas que as dão. De rosas não gosta, porque têm espinhos, há dias encontrei-a a combinar com a minha filha arrancar as roseiras todas para poderem mexer no jardim sem picarem os dedos. Oh, minha Nossa Senhora! Acabou por ficar tudo para mim que tenho que cavar, amanhar a terra semear e plantar se quero ter algo para colher.
Gostava de ter mais terra para plantar mais árvores de fruto. Com macieiras e pereiras não tenho tido sorte nenhuma, ando nisto, há 20 anos, desde que me reformei e passo a vida a arrancar umas para plantar outras e todos os anos fico com o mesmo problema, se quero comer peras e maçãs tenho que ir comprá-las à frutaria ou ao mercado. Pinheiros e eucaliptos ocupam muito espaço e demoram muitos anos a crescer. Diz-se por aqui que madeira plantada por nós só será cortada pelos netos, por isso não me meto por esse caminho. Grandes árvores como castanheiros ou cerejeiras poderiam ser uma boa aposta.
Há pouco, estava ali deitado de papo para o ar, a fazer a digestão da posta de bacalhau que me saiu na rifa para o almoço e ia pensando que logo que venha o Outubro quero plantar alguma coisa. Nem que seja apenas para não estar parado e suar um pouco para libertar as toxinas do nosso corpo. mas no meu quintal não cabe mais nada, tenho que procurar algum terreno que haja por aí abandonado para dar largas ao meu espírito de fruticultor.
Ao pensar nisto deu-me vontade de rir! Tenho meu quintal dividido em 4 partes, topo norte, topo sul, centro esquerda e centro direita. O topo norte está reservado para as habilidades jardineiras da minha mulher (tesourinha na mão para cortar as flores que lhe agradam). O topo sul é só meu, onde tenho uma pequena horta e crio umas quantas galinhas. o centro esquerda é um pomar de laranjeiras e limoeiros por baixo dos quais o meu cãozarrão vai largando uns presentes. O centro direita está vedado ao cão para me permitir ter alguns feijões verdes, uns morangos, uns tomates (alfaces não que os caracóis comem tudo) e milho no pico do verão quando a terra não dá mais nada. O milho está caro p'ra burro e as galinhas precisam dele para pôr uns ovinhos que prestem.
Ás tantas, o que vai acontecer é ficar quietinho a gozar os dias que me restam, pois se plantar um pomar, agora, o mais certo é morrer antes que as árvores comecem a dar fruto!
O calor, qual calor?
Tanto falaram no calor que vinha aí que assustaram o tempo! Hoje, ao levantar-me, tive que ir desencantar um casaco de agasalho para tapar o corpinho que começava a arrepiar-se. Por aqui está muito nublado e os telhados mostram que houve alguma "morrinha", ou pesado orvalho, durante a noite.
Do mal o menos, como não sou de ir para a praia ... tá-se bem!
Quanto ao resto, Portugal ganhou à Bósnia por 3 bolas a 0 e o Octávio "brazuca" foi assobiado por 50 mil pessoas na Luz. É bem feito, ele merece!
Nunca tinha ouvido falar no HOLODOMOR, o genocídio pela fome de cerca de 10 milhões de ucranianos.
Eu já sabia que do lado dos comunas de Moscovo não vem nada de bom, mas condenar a morrer à fome tanta gente, só mesmo da cabeça do Estaline! Não me vou alongar sobre o assunto, pois quem estiver interessado, facilmente, encontrará na internet toda a história.
Durante os anos de 1932 e 1933, faz este mês de Junho 90 anos (que terminou) , o povo ucraniano sofreu as passas do Alarve às mãos dos russos, tal como aconteceu em 2022 e 2023 com a missão especial levada a cabo por Putin. Faz lembrar um remake da tragédia de há 90 anos atrás!
sábado, 17 de junho de 2023
A Vergonha!
Agora é que eu percebo a minha avó Maria que costumava dizer, sempre que a palavra vergonha era pronunciada na sua presença, que "vergonha é uma pistola sem coronha!
Falar de vergonha é um bom tópico para desenvolver num dia de sábado, em que as pessoas têm um pouco mais disponibilidade de tempo para refletir sobre o assunto. O André Ventura que é assim uma espécie de rapaz mal comportado na política portuguesa, usou esta palavra, durante o interrogatório ao Pedro Nuno Santos e foi logo chamado à atenção pelo presidente da comissão, como se esta palavra grave na testa de alguém um carimbo de qualquer coisa feia, má, nojenta. E ainda acrescentou que não podia tratar o inquirido por você, mas sim por senhor doutor. Fiquei de queixo à banda!
Primeiro, vergonha é o que menos se vê na política, pelo que louvo o André Ventura cada vez que ele faz os ilustres representantes da nossa democracia pensar no assunto. E olharem para dentro de si e perceberem se devem sentir vergonha por algo que tenham praticado.. Acredito que poucos haverá que possam dizer: - isto não é comigo, não me serve a carapuça. A maior parte desses cromos a quem pagamos um salário que mais ninguém ganha, em Portugal, têm a consciência mais suja que pau de galinheiro (usando esta expressão brasileira).
E depois, essa de obrigar ao tratamento de senhor doutor é coisa de país pequeno. Se o cavalheiro que está a ser interrogado é doutor ou não, isso é lá com ele e com o esforço que pôs nos estudos, enquanto andou na escola. Para a sociedade é apenas "Senhor" e basta, pois alguns mereceriam mais depressa o epíteto de ranhoso, mentiroso, vergonhoso que o de senhor. Nunca vi, em país algum por onde passei, chamar doutor a quem quer que fosse, para além dos médicos no hospital. Para os ingleses é Mister ou Sir, para os franceses Monsieur e para os alemães Mein Herr. Gosto de ouvir os italianos tratarem por "onorevole" aos seus representantes políticos e penso como seria engraçado tratar os nossos mui dignos representantes por "honroso", quando sabemos que são uns trafulhas capazes de vender a própria mãe por meia dúzia de patacos. Tenham vergonha.
Uma pouca vergonha que pesa sobre o mui famoso José Sócrates é o caso BPN. Não foi ele o culpado de o banco falir (foi o Cavaco e os seu rapazes do PSD), mas foi dele a culpa da enorme dívida que nos pôs às costas. Quase 10 mil milhões a voar e pouco ou nada foi feito para os recuperar, pelo menos em parte para minimizar os custos da falência. Li, nas notícias de hoje, que prescreveu para alguns a obrigação de pagar o que deviam. Não admira, com a falta de vergonha que grassa por aí, a começar na nossa Justiça, outra coisa não seria de esperar. Os advogador que estudaram para ajudar os seus clientes a defender os seus direitos, dedicam o seu tempo e o seu saber a ensiná-los como fugir aos seus deveres. E os juízes que outra coisa não são que advogados rezam pela mesma cartilha. Podem não ser todos, mas é preciso peneirar muito para encontrar algum limpo de culpa. Olhem bem o que fez o Rangel ou o Ivo Rosa!
É uma vergonha pegada !!!
sexta-feira, 16 de junho de 2023
Graças a Deus!
Depois dos pássaros, da passarada, da lição de Português e do funeral do Silvio Berlusconi que optei por deixar em branco - o homem que ganhou a alcunha de Bunga-Bunga foi tão polémico e teve tanta gente a chorar por ele, quando morreu, que eu até tive medo de abordar o assunto e melindrar alguém - fiquei quase sem assunto para a minha publicação de hoje. Versos ainda não me atrevo a fazer, mas um dia destes talvez acorde virado para esse lado.
Felizmente, aconteceu a AG do Benfica, ontem à noite, e isso resolveu o meu problema, já tenho com que vos entreter, pelo menos aqueles que gostam do Benfica que os que alinham pelos dragões e leões, já os vejo a bater com a porta e mandar-me às favas. Antes de continuar com o assunto propriamente dito, deixem-me abrir aqui um parêntesis e dizer que a minha colheita de favas, este ano, foi um desastre por causa da muita chuva e vento que fustigaram as pobres que tinham acabado de nascer.
Quanto ao Benfica, depois de ter ganho o seu 38º título de campeão, só se esperava que corresse tudo bem, houvesse discursos inflamados e muitas palmadas ao novo presidente que lhes veio dar aquilo que todos queriam e os levou até ao Marquês em ritmo carnavalesco. E foi, mais ou menos, isso que aconteceu, se havia coisas mais complicadas para discutir ficaram e ficarão sempre para altura mais oportuna.
A questão da auditoria interna que foi prometida mal o novo presidente assumiu a pasta, devia rever o que foi a presidência do LFVieira e desenterrar cobras e lagartos que ele deixou tomar conta do Glorioso, nos seus quase 20 anos de presidência. Assim a modos que um balanço daquilo que ele fez de bom e de mau e do modo como isso afectou o nosso clube. Isso faria os sócios e adeptos dividir-se em duas fileiras, uns a aplaudir e os outros a apupar o ex-presidente e com isso gerar enormes divisões entre os sócios. Compreende-se, por isso, que demore tempo a sair para afastar os factos e as pessoas envolvidas da memória dos presentes na Assembleia, evitando quezílias e males maiores.
O pessoal queria era ouvir promessas de que não faltaria dinheiro para investir em novos craques que nos garantam o 39º título e o resto era assunto marginal que mal assomou na conversa. As contas foram aprovadas, a revisão dos estatutos ficou marcada para Setembro, com a nova época já em marcha acelerada e correrá conforme tenham corrido os primeiros jogos e a disputa da Supertaça Cândido de Oliveira que teremos que disputar contra o adversário mais difícil (não pelo que joga, mas pelo que não deixa jogar), o FCP.
Entretanto, pode ser que aconteçam algumas coisas que mudem essas coisas para melhor, a substituição de jogadores fiteiros e trafulhas por outros que joguem melhor e façam menos fintas e não assustem os árbitros que são, ao fim e ao cabo, aqueles que distribuem os pontos pelos clubes, ao longo da época. O Porto terá que jogar a fase de acesso à Liga dos Campeões e isso fará que esteja de bom humor, se a coisa estiver correndo a seu jeito, ou de muito mau humor, se a coisa lhe estiver a correr mal. E, claro, o Benfica é o culpado de todos os males que lhe acontecem e sobre ele recairá toda a culpa pelos insucessos.
Também pode acontecer que o Sérgio Conceição aceite os desafios que lhe são propostos e vá treinar para a Itália ou França e dê o seu lugar a outro treinador que incuta menos ódio nos seus jogadores. Eles, ao fim e ao cabo, vieram para jogar futebol e não para dar vivas ao Pinto da Costa Quando se portarem como tal, verdadeiros profissionais será muito mais fácil a sua vida e a dos seus adversários.
Para acabar, o JJ regressou da Turquia, todo inchado porque ganhou um título, embora não o de campeão, e procura um lugar onde passar mais 3 ou 4 anos, antes de pendurar o apito de treinador. Desde que não venha bater à porta do Benfica está tudo bem para mim, já tive a minha dose de sofrimento por causa dele.
Bom dia, alegria !!!
quinta-feira, 15 de junho de 2023
Lição de Português!
Não é para me gabar, mas o Português é a ciência que melhor domino. E não sou eu que o digo, cada professor que tive, durante a minha vida de estudante, dizia assim - se todos os alunos fossem como tu a nossa vida seria um descanso.
Bem, não vim aqui para me gabar, mas para falar um pouco sobre os segredos da nossa Língua que, para sermos bons cidadãos, devemos fazer todos os possíveis por dominar. Eu aprendi que a Gramática Portuguesa se divide em 3 partes, Em primeiro lugar a FONÉTICA que estuda os sons (fonemas), em segundo lugar a MORFOLOGIA que nos ensina os tipos e formas de palavras que usamos no nosso linguajar e, por último, a SINTAXE que estuda a função de cada palavra nas frases que formamos com elas.
Há dias, escrevi isto num post do Facebbok e apareceu um pretinho de Moçambique a contrariar-me, dizendo que não são 3 mas sim 4. Além dessas 3 havia também a SEMÂNTICA. Fiquei puto da vida, pois ninguém me informou que as coisas tinham mudado. Ora não é bem assim, a Semântica serve apenas para estudar a duplicidade de algumas palavras, tanto na sua forma, como na sua função na frase.
FONÉTICA
Dito isto, mantenho-me na minha e quero deixar aqui expressa a minha opinião sobre quem (que região) usa a Fonética com mais exactidão, no território português. Posso estar enganado, é só a minha opinião, são os Bracarenses (habitantes da cidade de Braga) que mais bem pronunciam as vogais, abrindo bem a boca, como os professores ensinam na 1ª Classe. Podem contra-argumentar que eles não sabem a diferença entre o B e o V, mas isso pouco importa. Por exemplo, em alemão, o B pronuncia-se como o nosso P, o V é igual ao F, o W é como o nosso V e por aí fora. Um algarvio, alentejano ou beirão e muito menos um lisboeta não consegue uma pronúncia (uso dos sons) como a malta de Braga.
E porque será que isso acontece? Eu diria que é por estarmos mais perto de Roma que nenhuma outra zona do país. A Bracara Augusta já existia quando os romanos cá chegaram, mas foram eles que lhe deram o título de Augusta e a transformaram na cidade mais ilustre da Península Ibérica. A ligação a Roma continua, ainda hoje, mas por outras razões, a Igreja Católica. E a Igreja quer dizer muitos padres, muitas escolas para os formar e muito conhecimento que, quer a gente queira ou não, passa para a população que com eles convive.
PONTUAÇÃO E ACENTUAÇÃO
A Fonética não tem muito que saber, ja a pontuação e acentuação das palavras é um verdadeiro quebra-cabeças para muita gente e convém estudá-lo como deve ser. Confesso que o AO (acordo ortográfico) me veio baralhar um pouco as ideias e, não raras vezes, me pergunto se estarei a escrever correctamente. Eu sou um grande crítico do José Saramago por ele não querer usar a pontuação correta nos livros que escreveu. Tenho que concluir que ele não dominava essa ciência, não teve professores, aprendeu sozinho, e assim escondia essa falha da sua formação. Ele tinha ideias para escrever e chutava palavras para cima de uma folha de papel à mesma velocidade que uma metralhadora dispara balas. A pontuação não lhe parecia coisa com que devesse preocupar-se. Ok, aceito isso, o mais importante é a gente perceber o que ele quer dizer.
Ora, a pontuação - o uso da vírgula, do ponto final, do ponto e vírgula, dos dois pontos além dos pontos de interrogação e exclamação não representam grande dificuldade para a maioria dos estudantes. E a acentuação obedece a meia dúzia de regras básicas que não são difíceis de memorizar. Onde está então a dificuldade? Na preguiça mental que afecta um grande número de pessoas. Pensando no custo/benefício que esse saber lhes pode trazer escolhem o caminho mais fácil, não lhe ligam patavina.
E, agora, com o uso da internet, dos anglicismos e das abreviaturas, temos o caldo entornado, Se pedir a um aluno que acabou de fazer o 12º ano para escrever uma redação de 20 linhas, ao ver o resultado tenho que me atirar para o chão para parar de rir ou evitar uma apoplexia. Estamos feitos ao bife, como se diz na gíria, ou talvez eles sejam o futuro do nosso país e eu já não tenha lugar nele!
N.B. - Termino com um ponto de exclamação, como deve ser, e não como faria o Saramago.
quarta-feira, 14 de junho de 2023
Passarada!
Depois dos comentários que tiveram a amabilidade de me deixar aqui, fui pesquisar imagens para tentar encontrar os chascos e as chincharabelhas de que vos falei. Não posso dizer que fui bem sucedido, pois as imagens que encontrei não casam com aquelas que guardo na minha memória. Se as pernas me ajudassem pegava numa câmara fotográfica e ia para os campos e bouças, onde passei a minha infância, armar-me em observador ornitológico e trazer um monte de fotografias para actualizar aquilo que os sabichões escrevem na internet.
Antes de entrar no assunto propriamente dito, vou recordar uma pequena história de passarinhos que se passou comigo, na Primavera de 2001, quando tomei posse desta casa que acabara de comprar. Desabitada há mais de 3 anos a casa desabara, pura e simplesmente, e o quintal estava transformado numa autêntica selva que os gatos das redondezas tinham adoptado como seu parque privado de recreio e caça. Pássaros, cobras e lagartos, nada faltava ali para lhes tornar a vida feliz. No fundo do quintal, vedado por um muro com mais de três metros de altura, havia um buraco, daqueles que os pedreiros deixam nos muros para meter um barrote e montar os andaimes. Casualmente vi entrar para lá um passarito, o que despertou a minha curiosidade, e fui lá espreitar logo que o residente voou para longe. Era um ninho de carriça e lá estavam os filhotes que abriram o bico, logo que sentiram a minha presença. Deixei tudo como estava e todos os dias ia lá espreitar para ver se os inquilinos continuavam vivos e de saúde. Um belo dia, quando me aproximei, vi logo que tinham dado às asinhas e partido à aventura. A menos que algum dos gatos os tenha apanhado e manducado. No ano seguinte, fiquei à espera que a mãe carriça voltasse para fazer o ninho e pôr os ovos, mas nada aconteceu. Devo dizer que os carriços são pássaros envergonhados e desaparecem mal se sentem observados.
Nas minhas pesquisas descobri dois pássaros que são muito parecidos com as chincharabelhas que mencionei. Um deles é o Chapim Real, mas a cor das penas é diferente, é tudo preto ou branco, como a cabeça deste chapim.
O outro é o Melharuco, embora a posição em que poisam neste imagem não corresponda à minha memória. A Chincharabella anda sempre aos saltinhos, de cabeça baixa e rabo no ar que não é, nem de perto nem de longe, a pose dos dois que se vêem aqui abaixo.
Quanto aos chascos, cujo nome eu pensava não existir, há os cinzentos, os pretos e os ruivos. Olhei para todos e cada um, mas também não se encaixam nas minhas memórias.
Trouxe ainda uma foto de um Rabiruivo que conheço, embora não com esse nome. Se tivesse o rabo no ar, diria ser um carriço, assim fico-me só em dizer que o conheço mas não lhe sei o nome
Um parente do Chasco é o Rabo Queimado que podem ver aqui abaixo e me parece mais aquele que eu via a cantar o cha.cha.cha que lhe granjeou o nome de Chasco.
E por agora é tudo! Podem ir até à mata de Mindelo (aqui perto de onde eu moro) que é um dos melhores lugares recomendados para »observar pássaro». Andam por lá muitos "coca-bichinhos", tipo caçadores de borboletas, de máquina fotográfica (com grande objectiva) em punho, prontos a conseguir a foto da sua vida, aquela que os tornará famosos. Com tanta presença humana, às atantas, são os pássaros que mudam de residência!
terça-feira, 13 de junho de 2023
O pássaro, a pássara e a passarada!
Pois é, há dias para tudo! Hoje, que é o dia de Santo António, padroeiro de Lisboa, eu devia falar dele ou das marchas que o PR foi ver e achou muito bonitas. Eu também achei, não sei explicar porquê, mas pareceram-me mais bonitas que em outros anos, mas posso ter estado desatentos no passado. Em vez disso resolvi falar da passarada que anda doida a fazer o ninho, pôr os ovos ou tratar dos pequenotes já nascidos e de bico aberto à espera de qualquer coisa que se engula.
Não liguem muito ao título que escolhi, pois, por momentos, fugiram.me os pensamentos para outro lado e escrevi algo que, talvez, nem todos compreendam.
Este passarito que vêem na imagem é um rabo queimado. Aparecem alguns aqui no meu quintal, embora haja mais melros, rolas e tarrotes (pardais do telhado), além de gaivotas que sobrevoam a horta, durante todo o dia, de olhos bem abertos, para ver se avistam qualquer coisa que lhes agrade. E aliviam a tripa, enquanto voam, pintando tudo de branco por onde passam.
Como todos os rapazes em idade escolar, eu também andei à procura de ninhos e fiz alguns esforços para conseguir chegar a alguns que eram quase inacessíveis. Rolas, gaios, pegas e corvos eram os mais raros e mais difíceis de encontrar e quando se encontravam, estavam em lugares, praticamente, inacessíveis, tipo, na crista dos pinheiros mais altos. Diziam que era possível pôr um corvo ou uma pega a dizer algumas palavras e andava tudo louco para tentar apanhar um ainda no ninho, pois a voar nunca os conseguiriam apanhar. No colégio de Coimbra, onde passei quatro anos da minha vida, havia uma mata como eu nunca tinha visto. Não havia pinheiros nem eucaliptos, como havia na minha terra natal, nem mato, daquele que pica as pernas a quem se mete pelo meio dele. Nessa mata do colégio era uma alegria ir aos ninhos, as árvores tinham ramos até ao chão e eram facílimas de trepar. Uma festa para este rapaz que nada o fazia desistir de qualquer empreitada por mais encrencada que parecesse.
Mas também não foi para descrever isso que aqui vim. Estou a olhar pela minha janela e vejo um passarinho, pousado no galho de uma árvore que me parece um «Chasco». Nunca ouviram esse nome? É natural, cada terra tem seu uso, cada roca tem seu fuso e até os nomes da passarada variam de terra para terra. O nome deste pássaro advém da sua forma de cantar, se se pode chamar cantar ao som que ele emite pelo bico fora. Um som que é mais ou menos assim - unchachacha, unchachacha - e enquanto emite esse som flete as perninhas até chegar com o peito ao chão. Na minha interpretação aquilo quer dizer - estouaqui, estouaqui - diz ele para avisar a fêmea que deve andar por perto. Se alguém conhecer e souber o nome científico deste pássaro, agradeço que mo digam.
Este pássaro faz o ninho no chão, entre tojos de mato, o que é uma alegria para as cobras que andam por ali à procura de alimento. Não era ninho que nós gostássemos de procurar, andar a remexer o mato picava os dedos e era preferível evitar. Os melros e as serezinas faziam os ninhos nos ramos das videiras e eram muito mais fáceis de abordar. E os melros eram pássaros muito finos, se a gente mexesse nos ovos que estavam a chocar, nunca mais lá voltavam. Abandonavam aquele e iam fazer outro ninho mais bem escondido.
E a chincharabelha alguém conhece? É um passarinho pequeno que tem as penas numa linda combinação de preto e branco a fazer lembrar as camisolas do Boavista, embora não seja aos quadradinhos, é mais às riscas. Na minha terra havia uma cantilena que as crianças cantavam, quando as viam aparecer na Primavera e que rezava assim: - Chincharabelha em cima do muro, treme-lhe o cu como um figo maduro!
Tudo isto era num tempo em que não havia Costa nem Marcelo, Galamba ou Medina. Se os políticos já eram malandros e ladrões não sei, mas pelo menos ninguém falava nisso, havia muito respeitinho. Na escola tínhamos o Salazar e o Carmona por cima do quadro negro e aprendíamos a cantar o Hino Nacional e também o da Mocidade Portuguesa. Era melhor, era pior? Sei lá, eu ia aos ninhos e o resto não me preocupava!
segunda-feira, 12 de junho de 2023
À segunda também há futebol!
Como já devem ter percebido, tanto pelos textos e fotos (publicados aqui acima) o assunto é o Clube de Futebol Os Belenenses. Há 5 anos, por causa do desentendimento entre a SAD e o Clube este histórico clube de Lisboa foi jogar para as distritais, ficando a SAD com o plantel a jogar na I Liga, coisa que nunca se pensara pudesse acontecer. Mas, neste país de leis esquisitas e que para pouco servem, tudo pode acontecer. O Clube ficou com o estádio, mas sem uma equipa para nele jogar e dar alegrias aos seus sócios.
Este ano, o destino marcou a hora para o trafulha que lidera a SAD, levando a equipa que ele comanda para a III Liga. Depois disto, só lhe resta um caminho, desaparecer e deixar o lendário clube do Restelo continuar a escrever a sua história. Do outro lado, a esforçada equipa que lutou pela subida dos distritais à III Liga e este ano consegui trepar mais um degrau e entrar e aceder à II Liga do nosso futebol profissional. Pode ser que em breve os possamos ver a lutar pela subida à divisão maior do futebol e dar o seu contributo para uma melhor Liga.
O Vicente Lucas, de que fala o texto acima, é irmão do famoso Matateu que jogou no Belenenses, quando eu ainda andava na Primária e nada sabia de bola. Na boca do seu irmão o Matateu era inda melhor que o Eusébio a que juntando o Mário Coluna fazia o trio de jogadores moçambicanos mais badalados em Portugal.
Quando comecei a abrir os olhos para o futebol só havia 3 jogadores que viviam na minha cabeça, o Eusébio (Benfica), o Matateu (Belenenses) e o Travassos (Sporting), tudo o resto eram apenas sombras que que evoluíam em redor dos 3 grandes.
Desejo um feliz regresso do Belenenses à Liga Profissional e espero que consigam trilhar o seu caminho, em direcção ao futuro, com o maior sucesso!
domingo, 11 de junho de 2023
Futebol é ao domingo!
Ainda se lembram como era, antigamente, a tarde de domingo cheia de relatos de futebol que o povinho ouvia deliciado nos pequenos rádios portáteis?. A televisão era ainda uma moda recente e não fazia mais que transmitir, à noite, o resumo dos diversos jogos, num programa que dava pelo nome de «Domingo Desportivo». Agora tudo é transmitido e obriga a uma grelha televisiva que espalha os jogos de sexta até segunda, para contentar todos e garantir aos clubes mais pobres uns euritos pelos direitos televisivos que os mantêm de porta aberta.
Bem, hoje é domingo e venho aqui trazer algumas notícias do meu clube que garantiu o título de campeão na época recém-terminada. Ontem jogou-se a final da Taça dos Clubes Campeões Europeus e ganhou o Manchester City com um único golo marcado por um espanhol, com assistência de um português, o fantástico pequeno jogador Bernardo Silva. Até ao início da próxima época, haverá apenas jogo de selecções e apenas amigáveis.
Mas as direcções e equipas técnicas dos clubes começam agora a parte mais trabalhosa e de certo modo decisiva para a nova época. É preciso despachar os jogadores que provaram ser apostas erradas, é preciso contratar alguém para substituir os que saírem e, claro está, fazer alguns milhões em vendas, pois sem esses milhões não há clube que resista. Felizmente para o Benfica são os mais directos adversários, Porto e Sporting, que têm que mostrar serviço, pois são os que têm situações mais deficitárias. O Benfica ao sagrar-se campeão já tem uma boa maquia garantida pela entrada directa na Liga dos Campeões.
Mas vamos aos factos. São 6 os futebolistas que regressam ou saem, caso do Draxler, ao plantel e o treinador tem que olhar para eles e participar à direcção do clube o que fazer com eles. Dos 5 que regressam só vejo algum potencial no João Vitor (defesa) e Paulo Bernardo (médio), mas isso sou eu a falar que não estou por dentro dos pormenores. Deixemos o Herr Schmitz dizer da sua justiça.
E há outro grupinho que já passou pelo crivo dos analistas que deixaram ir â vida o Grimaldo e o Weigl, o primeiro porque exigia demais para ficar e o segundo que foi vendido a preço de saldo por ter sido post de lado pelo treinador, logo que esta chegou à Luz. Nem por serem conterrâneos isso garantiu a permanência do J. Weigl, não serve, não serve e rua.
A nova coqueluche do ataque benfiquista, para ocupar o lugar que se prevê venha a ficar vago pela saída do GR88, é um jovem turco que deu que falar na Holanda, perdão, países Baixos que agora é proibido dizer Holanda. Com um nome que vai dar muitas dores de cabeça aos comentadores que terão que falar nele, nem que seja só pelos milhões que custou ao Benfica. O melhor será fazer uma gravação do jovem avançado a pronunciar o seu nome para todos treinarem e não fazer vergonhas a chamar ao rapaz algum nome feio na língua do país de onde ele veio, a Turquia. KOKÇU com um trema em cima das duas vogais, sabe Deus como se deverá ler!
Do Joshua que veio dos Estados Unidos nunca ouvi falar! Qual será a especialidade dele? Também não sei, mas vou ficar atento ao próximo programa desportivo que me dará mais pormenores com toda a certeza. Por boas ou más razões o BENFICA é sempre notícia.
Ah, ia-me esquecendo de informar que o argentino Otamendi assinou com o Glorioso por mais dois anos, coisa que não estava nas minhas previsões. Ele é velho demais e caro demais para o Benfica e deveriam tê-lo deixado ir à vida. Ele quer e poderia ter regressado ao clube do seu coração, ainda a tempo de brilhar aos olhos de quem gosta dele. Ao ficar no Benfica por mais dois anos cortou rente essa hipótese de voltar ainda a brilhar perante os seus adeptos. Quando sair de Lisboa vai com as chuteiras penduradas ao pescoço!
E é tudo o que temos para hoje, amanhã há mais!!!
sábado, 10 de junho de 2023
Camões!
Pois é, eu devia falar do Camões, mas deixo-vos apenas esta quadra que atesta as minhas capacidades poéticas e vou falar-vos de costura, uma arte que deu o pão a ganhar a muitas mulheres num passado remoto e que foi destronada pelas confecções e o pronto-a-vestir.
E quem fala em costura fala em costureiras que, tal como a Eva, saíram da costela de um homem, são tortas e duras de roer. Isto disse um brasileiro e as suas palavras caíram debaixo dos meus olhos que li e fui obrigado a concordar com elas. Deus podia ter escolhido outro osso qualquer, ao escolher a costela deve ter tido as suas razões, embora eu acredite que foi apenas por termos muitas e uma não faria falta para equilibrar o esqueleto.
Depois de umas quantas voltas pelo mundo, eu próprio acabei por me juntar ao mundo da costura e das costureiras e por lá fiquei por um longo período da minha vida, o que prova que me dei bem com a companhia, senão teria desertado e rumado a outras paragens.
Mas a minha história - a que hoje escolhi para vos alegrar a vida - começou, em Moçambique, no mesmo mês em que me tornei maior de idade, aos 21 anos que antigamente, aos 18 ainda não éramos considerados gente de juízo perfeito. Mas, no entanto, e mesmo sem o juízo todo, eu já tinha corrido Moçambique inteiro, de G3 em punho, procurando manter os turras da Frelimo na ordem.
Desculpem-me lá, já ia a descarrilar, a história é de saias e de costura e nada tem a ver com guerras, com turras e também não mete armas. A não ser as que as mulheres usam para nos dar volta à cabeça. E é por aí que mergulho de novo nas minhas recordações do passado e me vejo a empacotar todos os meus pertences para embarcar rumo a Lisboa. Depois foi uma viagem maravilhosa, a bordo de um paquete de luxo, que não paro para vos descrever senão tornaria isto uma leitura longa e cansativa. Digo cansativa, porque muitas vezes o que para nós foi um delírio total aos outros pode aborrecer. Num abrir e fechar de olhos estava em Lisboa e pronto a gozar uma curta licença, a primeira desde que ingressara na Marinha, pois muito em breve começaria o Curso de 1º Grau, na Escola de Fuzileiros.
Parti de Santa Apolónia depois do almoço e cheguei ao Porto, ao fim da tarde. Como tinha ali família, decidi fazer-lhes uma visita e só no dia seguinte continuar a viagem até casa dos meus pais. Distribuí beijinhos "à labúrdia" por tudo que era primo ou prima e aceitei o jantar que a minha tia me ofereceu. Na hora do "vamos dormir" acompanhei a minha prima mais velha que tinha uma filha da minha idade - fora mãe com apenas 16 anos - e que garantiu que tinha lá um lugarzinho onde eu ficaria bem instalado. Meteu. me na cama da filha e levou esta com ela para dormirem na cama de casal que era a dela e de quem mais ela lá resolvesse meter. Talvez lhe tivesse passado pela cabeça ficar ela na cama da filha e deixar-me na companhia da priminha na cama grande, mas não o fez, seria andar depressa demais.
Interrompo aqui o curso da minha história para recuar 21 anos e pôr-me no lugar dela, grávida no fim do tempo e com apenas 16 anos de idade. Que ia ser da vida dela? Tal como a mãe, aprendera a dar uns pontos, muito embora não se pudesse dizer que era uma verdadeira costureira. O pai da criança era um moço da lavoura e trabalhava ao jornal para quem quisesse os seus serviços. O casamento foi um acto que não ficou registado na memória de ninguém para além da mãe da criança que estava quase a nascer e da avó que não sabia o que fazer com filha e neta daquelas idades. Assim o marido assumiria uma parte das responsabilidades e ela podia folgar um pouco as costas.
Mas foi sol de pouca dura, o genro era um encrenqueiro de primeira, sempre metido em disputas por causa dos engates, achava-se o mais bonito lá da terra, e um belo dia acabou com a cabeça rachada ao meio por uma foice empunhada por um dos seus contendores. Filha casada, filha viúva e um novo problema para resolver.
Com aquilo que aprendera no negócio da agulha e do dedal, mudaram-se as duas para o Porto à procura da sua sorte e de um futuro que brilhasse mais que o passado. A mãe arranjou trabalho como costureira de um grupo de teatro amador e entregou a filha a quem lhe tomasse conta dela por meia dúzia de tostões. Por volta dos 4 anos já a filha ia com ela e poupava os tostões que dava a quem tomara conta dela até à data.
E assim se foram passando os anos, até que a filha arranjou também ela emprego como costureira numa alfaiataria do Porto e começou a contribuir para o orçamento da casa. Foi nesta situação que as fui encontrar naquela noite em que, regressado de Moçambique, lá fui dormir. Uma parte da história que acima resumi foi-me contada pela própria nessa noite, antes de o sono nos mandar para a cama. Todos três, demos muitas voltas na cama, cada um estranhando uma posição a que não estava acostumado.
No dia seguinte, segui viagem para o norte, gozei a minha semana de férias e ala, a caminho de Vale de Zebro, pronto a escrever outro capítulo da minha vida pessoal. Uns dias mais tarde, recebi uma carta da "prima do Porto" dizendo-se encantada pelo nosso recente encontro. Escrivão como eu era, logo teve a minha resposta e carta para cá, carta para lá, passámos assim aqueles 5 meses que durou o curso. Não sei muito bem se a conversa que íamos desenvolvendo nas cartas se podia chamar um namoro, o que contava era o que cada um tinha encasquetado na sua cabecinha. E ela partiu do princípio que aquilo era um namoro e coisa séria para nos levar até ao casamento.
Só que conversas leva-as o vento e um mês após acabar o dito curso que me dava direito a usar as divisas de Marinheiro, inscrevi-me na CF8 (Companhia de Fuzileiros Nº 8) e rumei de novo a Moçambique, minha segunda pátria. A correspondência com a prima terminara ali e soube mais tarde que custara muito mais a suportar à mãe que à filha.
Esta vendo o tempo passar, em breve faria 22 anos, e sem casamento no horizonte decidira ceder aos avanços do patrão alfaiate, convivia com ele desde os seus 16 anos, e meter-se com ele na cama. Tempos depois teve um lindo pimpolho a quem pôs o nome do avô, o tal que acabou com a cabeça rachada ao meio, mas casar nem pensar, pois o alfaiate já tinha em casa uma mulher e filhos.
Foi por essa altura que recebi uma carta da minha prima, agora tornada avó, acusando-me de ter abandonado a sua filha, levando-a assim a enveredar por maus caminhos. A responsabilidade pelo nascimento daquela criança pesar-me-ia na consciência para o resto da vida. Confesso que nunca senti esse peso, não prometi nada à rapariga e portanto não quebrei nenhuma promessa.
A alfaiataria continuou com o seu negócio a correr bem e não tardou muito que a família fosse aumentada com outro pimpolho e assim continuou até chegar aos cinco, sendo o último rebento uma menina chamada Bela que hoje vive em França. E pouco tempo depois da Bela nascer, o alfaiate enviuvou foi possível o casamento para dar um pouco de normalidade àquela família que já ia grandinha e ocupava um lugar muito seu neste mundo de Deus.
Regressei de Moçambique, na Primavera de 68 e abandonei a marinha uns meses depois. A Primavera de Praga aconteceu por essa altura, os checos viram-se livres dos russos, enquanto eu me vi livre da Armada Portuguesa que me tratou mal no último ano, roubando-me as divisas de Cabo e obrigando-me a assinar o pedido da demissão. Fui até à Bélgica, à procura do meu destino, e acabei na Alemanha a trabalhar na ferrugem. Vida pesada que me me fez regressar a Portugal e procurar outros caminhos para a felicidade que me apareceu na forma de uma fábrica de confecções, a maior que já houve em Portugal.
E foi assim que também eu me juntei à Costura, fazendo companhia às minhas primas com quem me cruzei algumas vezes e me brindavam com um olhar de partir pedra. Mas o tempo é um grande médico, cura todos os males. Aos 90 anos, o meu pai sofreu um AVC muito grave e ficou prostrado numa cama, como se estivesse em coma, durante um ano inteirinho. Essa ocorrência fez passar pela casa dos meus pais toda a família, inclusivé a minha prima e o seu marido-alfaiate. Cumprimentamo-nos cordialmente, beijo para ela, aperto de mão para ele e cada um dos três perdido nos seu próprios pensamentos.
É assim a nossa vida!
quinta-feira, 8 de junho de 2023
Pouca sorte a minha!
Fui para a bicha da loja da minha zone e já lá estavam uns quantos que chegaram antes de mim. metade deles não queria comprar o aparelhinho (que até nem é caro, 15€) e argumentavam que era a NOS que tinha que resolver o problema, pois pagam a mensalidade na data certa e nada justifica estes custos extra. Se o serviço foi mudado, não foi a pedido do cliente, portanto ... a NOS que suporte os custos da mudança.
Mas o problema é muito mais complicado que isso, é assim como mudar dos comboios a carvão para comboios electricos, é mais moderno e mais bonito, mas custa dinheiro. A TDT (Televisão Digital Terrestre) foi aprovado pelo governo, há já alguns anos. Imagine o que aconteceu a um casal que morava na Aldeia das Dez, ouviu a notícia na televisão, mas não percebeu nada do que estava a ouvir, assim um pouco como nós ficamos a ouvir o Mário Centeno a explicar a razão de o BCE subir os juros e os bancos portugueses ficarem a rir-se na cara dos lusitanos. Os bancos podem subir para o dobro a prestação da casa porque o BCE subiu a Taxa Euribor, mas não podem subir para o dobro o juro que pagam aos depositantes. O dobro nem seria suficiente, pois o dobro de nada continua a ser nada, tal como 0 elevado ao quadrado não deixa de ser zero.
A Aldeia das Dez fica num buraco do concelho de Oliveira do Hospital, onde nem o sinal da RTP 2 chegava, quanto mais o da SIC ou TVI, quando foram criados para tirar Portugal da Pré-História da Televisão. Com o tempo lá foram arranjando algumas soluções para ver a telenovela, mas quando veio a TDT ficaram outra vez às escuras (como eu fiquei ontem). E sou um cliente importante para a NOS, pago um porradão de dinheiro para ter telefone, televisão e internet, acrescido de 6 cartões para telemóvel, tenho duas BOX, uma em cada ponta da casa, mas tenho mais 4 ou 5 televisões que se apagaram ontem e assim vão ficar, pois só a do meu quarto teve direito ao moderno DD (descodificador digital) que fui comprar por 15€
Mas esta minha publicação de hoje é assim a modos que uma reclamação pelo miserável serviço de internet que a NOS me dá. Na publicidade é tudo uma maravilha, serviço 5G com 100 Megas de velocidade garantida. Pois é, mas vejam na imagem acima a velocidade que hoje me chega aqui. Dizem eles que o falhanço é por causa do WIFI, pois só garantem aquelas condições em Internet fixa. Se não me doessem tanto as pernas, subia ao 1º andar onde está o router e o meu antigo computador de secretária (ai, como eu gostava de teclar naquele "old fashionned" teclado) para vos mostrar a diferença que nã acredito seja assim tão grande.
A assistência técnica da NOS já cá veio várias vezes e, na opinião dos diversos técnicos que por cá têm passado (os últimos eram brasileiros) eu tenho é que mudar de casa. A casa é muito comprida, quase 20 metros, e com várias intercepções que roubam o sinal ao cabo. Por isso já pago uma BOX em cada ponta da casa e ainda um amplificador de sinal, entre as duas, mas é como vêem, a coisa continua insatisfatória.
O que eu devia fazer era montar um armário com um repartidor de fibra óptica e reservar um par de fibras para cada divisão da casa. Um par de fibras na origem dá para repartir em 25 pares e aí acabavam de vez os meus problemas. Mas quanto me custaria isso? Só a Universidade do Minho, em Braga, é que teve direito a uma coisa dessas e é o Ministério da Finanças que paga a conta!
quarta-feira, 7 de junho de 2023
São maneiras de ser, de ver e de fazer!
Escrever não é com eles, desabituaram-se e arrancar-lhe duas palavras requer um esforço que só eu é que sei. E nós, os velhos do Restelo, que gostamos de escrever longas crónicas e grandes discursos para outros lerem e, por vezes, copiarem para armar ao pingarelho, é que somos os cromos que não souberam adaptar-se às novas realidades.
Eu tenho uma curta meia-dúzia de seguidores e/ou comentadores e, à minha volta, só vejo desistentes e blogas abandonados que não têm uma publicação, há anos. Alguns dos que visitam o meu blog são antigos combatentes da Guerra Colonial, camaradas da Marinha de Guerra e amantes de África, em especial, Moçambique. Mas sinto que a cada ano vou ficando mais só, o que se entende pela idade avançada de toda essa gente que andou pelo nosso império que perdemos, fará em 2024, 50 anos. Uns morrem desta vida presente (como diziam os abades, antigamente, ao registar os óbitos) outros morrem para a escrita e contacto com as outras pessoas, ou seja, desligam-se deste mundo que é o nosso (dos bloggers).
A Elvira, Deus lhe dê muita vida e saúde, é o último exemplo desta fauna em vias de extinção. A sua saúde e a do marido vêm, como é lógico, em primeiro lugar e obrigam-na a pôr de lado a escrita e os blogs de que gosta tanto, pois a mantêm ligada a um mundo que de outro mos não conheceria. O Eduardo é outro exemplo de um parceiro que me acompanhou durante anos. Fizemos juntos a guerra no distrito do Lago, província do Niassa, em Moçambique e, agora, a sua saúde deteriorou-se de tal modo que o forçou a retirar-se destas lides. E bem pena me faz! Pior ainda os casos como o do Querido cuja vida foi ceifada por um cancro na próstata, a doença masculina da moda.
Alguns blogs que visito com frequência comprovam esta tendência de abandono, uns são jornalistas reformados que ainda não aceitaram a sua nova situação (fora do mercado), outros escrevem publicações cada dia mais curtas e sem interesse.. E noto também que os 220 milhões de brasileiros, falantes da Língua de Camões, são quem mais motiva e puxa pelo bloguistas portugueses. Seja no amor pela Poesia ou muitos outros interesses que nem me atrevo a enumerar, de tantos que eles são, os brasileiros e mais ainda as brasileiras são os maiores e arrastam muitos portugueses atrás deles (os seguidores).
Ah, ia-me esquecendo do futebol que é quase uma doença pública no Brasil, mas é em Portugal que dá vida a milhentos blogas, onde cada um expressa as suas preferências ou dá livre curso às suas alegrias ou tristezas alteradas ou renovadas a cada jornada que passa. O Benfica, o Jesus ou o Vieira deram-me tópicos, anos a fio, para encher o meu blog. Com o andar do tempo, os camaradas da tropa e da guerra foram-se diluindo na minha vida, da família não gosto muito de falar, por conseguinte, ficou-me o amor pelo Benfica como mote principal para continuar a andar por aqui. Mas, como fazem outros que conheço, isso daria para uma publicação semanal e viva o velho!
Só de me lembrar que o Benfica só voltará ao activo, no início de Agosto até sinto arrepios. Vão ser dois meses difíceis de passar e com muitos posts de chacha, como este. Quando uma pessoa não encontra razão para viver é meio caminho andado para morrer. Estou quase a sentir-me assim, no que respeita à escrita!
segunda-feira, 5 de junho de 2023
A D. Engrácia!
Ao longo da minha vida que já vai longa têm passado muitas mulheres. No início era a mãe, a avó e as irmão. Depois apareceram as primas, as amigas e as namoradas. Depois de seleccionar uma das namoradas para partilhar a minha vida, passou a contar mais ela e a filha que me deu. Mas a vida não para e depois dessas duas, muito importantes, vieram muitas outras para me alegrar ou infernizar a vida. De entre elas vou a escolher a D. Engrácia para preencher a minha crónica desta segunda-feira, dia 5 de Junho.
A D. Engrácia veio-me parar às mãos, quando entrou na menopausa e passava os dias com a lágrima ao canto do olho, pois não sabia como lidar com aquilo. Quando digo aquilo refiro-me às mudanças de humor e tantas coisas mais que afligem a mulher nessa fase da vida. Como ela era funcionária no departamento que eu chefiava, achei por bem chamá-la ao meu gabinete e inquirir das razões que a levavam ao estranho comportamento dos últimos tempos. No fim disse-lhe: - Tenha calma D. Engrácia, isso é natural durante a menopausa e depressa lhe passará, não se apoquente por tão pouco. Ela agradeceu a atenção, secou os olhos e foi à vida dela.
A vida dela nunca foi fácil. Aos 16 anos de idade era uma bela morena com uma grossa trança preta que lhe chegava quase à cintura. Poderia ter tido uma juventude bem mais alegre se não se tivesse cruzado com o meu amigo Manel que era um mulherengo de primeira e lhe começou a montar um cerco que acabou por fazê-la cair no anzol.
Este Manel era um daqueles rapazes convencidos que conduzia um descapotável vermelho, de óculos escuros a esconder os olhos e calçando luvas de fino cabedal, sem dedos, para lhe permitir sentir o volante. Ele trabalhava numa empresa fornecedora que eu visitava amiúde por causa dos negócios. Um dia entrou-me pelo escritório adentro anunciando, agora seremos colegas, fui contratado pelo Sr. Pereira para ser o seu braço direito.
Ele vivia um vida dupla, pois tinha a mulher em casa, mas passava a vida com a namorada, a menina Engrácia que nesta altura já era menina para ter uns 30 anos de idade. mesmo com uma namorada fora de portas e a legítima dentro das mesmas, ele ainda sonhava com outras aventuras. E assim, um belo dia, subiu ao telhado da sua casa para ver uma coisa que o andava a incomodar. À mulher disse que era uma mancha a aparecer na parede do quarto de banho, o que poderia significar uma telha partida.
Mas qual telha, qual carapuça, ele foi espreitar por uma pequena janela da casa do vizinho que dava para o quarto de banho e tentar ver a filha deste a tomar banho. Não sei como ele descobriu isso, talvez por mero acaso, mas começou a meter-se-lhe na cabeça que tinha que ver a miúda, muazinha como veio ao mundo, e lá foi ele mais uma vez encostar a escada e subir para cima do telhado. E esta foi a última vez que o fez, pois escorregou e veio parar cá abaixo, estrampalhando-se todo no chão de cimento do seu pátio. Quebrou a coluna e ... ponto final nas aventuras de Casanova.
A notícia chegou ao nosso escritório, mas o Manel só apareceu, cerca de um ano mais tarde, a tocar uma cadeira de rodas que era agora o seu meio de transporte que substituíra o seu descapotável vermelho. E com ele trazia a, já vossa conhecida D. Engrácia que carregava a bolsa dos pertences do seu apaixonado e ajudava com as manobras da sua nova viatura. Mais tarde, alargaríamos as portas e os corredores, entre secretárias, para lhe ser mais fácil deslocar-se. A casa de banho também objecto de algumas modificações para lhe permitir entrar de cadeira de rodas e mexer-se a seu contento.
Toda a gente ficou admirada com a entrada da casal, assim de rompante, pois sabia o homem casado e ainda a viver com a sua legítima esposa. mas depressa veio a saber-se toda a história. Nos meses em que esteve hospitalizado recebia as visitas, ora da mulher, ora da amante (a partir de agora é assim que a passarei a tratar). Só que um dia, a mulher entrou na enfermaria e viu o seu marido segurar entre as suas a mãozinha (?) da querida Engrácia. E aí entornou-se o caldo.
Depois da hospitalização, passou uns meses em casa e a situação desanuviou-se um pouco, mas mal ele pôde pôr um pé na rua foi logo ter com a sua Julieta e quando isso chegou aos ouvidos da mulher pôs-se um ponto final naquela situação. Ele teve que procurar outra pousada e a Engraciazinha acompanhou-o. Pouco depois compareceu na nossa empresa para retomar as suas funções, coisa que na prática nunca aconteceu. Com as suas actuais limitações embraçava mais do que ajudava no escritório e depressa foi nomeado como encarregado da máquina de fotocópias.
Só nessa fase da sua vida, eu conheci a D. Engrácia que agora funcionava como uma respeitável senhora casada que cumpria à risca todos os deveres para com o marido paraplégico. A trança preta, há muito, tinha ido à vida e tinha agora uma farta cabeleira loira, ligeiramente ondulada. Usava roupas muito na moda e nunca descalçava os sapatos de tacões altíssimos que lhe faziam sobressair os gêmeos. Era assim uma versão de Lili Caneças com metade da idade desta.
Só que a D. Engrácia tinha um problema que lhe criou um complexo difícil de ultrapassar. Aquela famosa trança que usava na sua juventude era sinónimo de uma pujança capilar acima da média e isso fazia-a correr, amiúde, para o instituto de beleza para remover as incómodas pilosidades. Pilosidades que em pouco tempo teimavam em reaparecer, especialmente por cima do seu lábio superior. À conta disso ganhou a alcunha de Miss Bigodes e teve muitas zangas com as colegas que olhavam para ela de canto. Se calhar mais pela ligação com o Manel engatatão do que pelo bigode que teimava em voltar sempre a aparecer.
Pouco depois da viragem do milénio, saí da empresa para a reforma antecipada e lá deixei o Manel e a D. Engrácia, cada um com os seus problemas e procurando resolvê-los sem a minha ajuda. Poucos anos depois morria o Manel, depois de milhentas infecções na bexiga que ficou a ser o seu maior problema depois do acidente. A D. Engrácia, agora uma respeitável viúva, ainda deve andar por aí, pois ter-me-iam avidado se ele tivesse morrido!
domingo, 4 de junho de 2023
Luto!
Ontem, fiquei de luto pelo meu amigo Braulio que faleceu na terça-feira e foi cremado na sexta, no cemitério dos Olivais. Por isso não escrevi nada, sentia-me ... depressivo e não vos queria passar esse sentimento que era só meu.
O Braulio era um bom rapaz e um bom amigo, ele falava pouco, não chateava ninguém e cumpria o seu dever como poucos. Para além disso ainda me convidava a comer uns figos e beber um trago de aguardente de figo que os pais lhe enviavam de quando em vez.
Começo a acreditar que aquela conversa de só morrerem os bons é a mais pura verdade. Da maneira que vemos o mundo, com Putins e outros que tais, só pode ser por causa disso, os bons morrem e só ficam cá os maus para nos atazanar a vida.
A acrescentar à morte e posterior cremação do Braulio há ainda o caso do meu primo Zé Risso (que vocês não fazem a menor ideia de quem seja) que nasceu no mesmo ano que eu e sofreu um AVC que o atirou para uma cama do hospital. Estava o Braulio a entrar no forno e eu a subir no elevador até ao 5º andar para ver com os meus olhos como estava o primo. Pois, não estava muito bem, todo entubado, todo picado, todo pisado e com uns olhos que olharam para mim e não me reconheceram.
Há dias assim e quando calha a uma sexta-feira soam as campainhas do alarme para nos lembrar que foi numa sexta-feira que Jesus subiu ao Calvário e foi crucificado. Também altura e nesse lugar havia um grande número de maus que gritavam: - crucificai-o! A maior parte nem sequer fazia ideia do que se passava, faz-me lembrar da quantidade de portugueses que voltariam a votar no Costa se houvesse eleições depois das férias de verão. O que nos vale é o Marcelo ser uma espécie de Pilatos que lava as mãos e evita tomar uma decisão.
Desculpem lá este arrazoado que não era minha intenção trazer para aqui, mas essa do Braulio ser cremado e virar cinza, em vez de retornar ao pó da terra de onde veio, não me sai da cabeça. Já nem me lembro muito bem qual era o tópico que tinha escolhido para a minha crónica domingueira e parece-me ser tarde para voltar atrás e começar do princípio. Ordenar os nossos pensamentos, numa altura destas, não é um exercício fácil, eles fogem ao nosso controlo por mais que o tentemos evitar.
Bem, amanhã é segunda-feira e uma nova semana começa. Pode ser que seja uma semana boa e apague os sinais de tristeza com que acabou esta!
sexta-feira, 2 de junho de 2023
Visão futurista!
A Christine Lagarde que é a manda-chuva do BCE diz que o mais provável é os juros continuarem a subir (mais um pouquinho), vamos numa viagem que ainda não chegou ao fim. O ministro das finanças do último governo de Sócrates, aquele beiçudo que ajudou a enterrar-nos em dívidas, veio avisar que acha que os juros podem descer 25 pontos base, já na próxima mexida que se adivinha para breve. Um dos dois anda a enganar-nos e eu confio mais na francesa que no beiçudo da Maia.
Hoje, acordei a pensar como seria a década de 60 deste século por contraponto com a do século passado, época em que deixei de ser estudante e entrei no mundo real, aquele em que era preciso levantar cedo e ir trabalhar para garantir o pão-nosso-de-cada-dia. Em Julho de 1960 fiz o meu exame de 5º Ano no Liceu Nacional da Póvoa de Varzim e regressei à aldeia onde nasci e de onde tinha saído com 11 anos de idade. Algumas coisas já tinham mudado muito, havia luz eléctrica em quase todas as casas e a estrada que ligava à sede do concelho tinha sido alcatroada. Os automóveis eram raros ainda, mas havia uma camioneta da carreira que ia e vinha 2 ou 3 vezes ao dia.
Na minha visão futurista que se expandia perante os meus olhos, ainda mal abertos e embaciados pelo sono de que acabara de sair, tudo era completamente diferente. O petróleo tinha passado à História e o combustível que movia o mundo era o H2 retirado da água. Tudo o que se mexia era tocado por este novo combustível obtido através da electrólise da água. Mas, em contrapartida havia menos água que em meados do século XX e esta era guardada como se fosse ouro e traficada como é hoje a cocaína ou heroína. A conversa sobre o aquecimento global andava um tanto esquecida, já que as emissões de gases tinham diminuido significativamente.
Em Portugal, viviam-se duas realidades muito diferentes, a norte do Tejo ainda havia água que dava para os gastos, mas a sul desse grande rio que cada vez deixava mais água em Espanha do que aquela que trazia para Portugal, vivia-se em grande parte de água do mar dessalinizada para o efeito. Ainda se podia passear pelo Gerês e ver a água correr pelas valetas, como foi desde que o mundo é mundo. O nosso governo tinha regulado o uso e aproveitamento da água de forma engenhosa, construindo algumas novas barragens mais pequenas e fazendo transvases entre elas para regularizar os caudais nos períodos mais críticos e nos lugares mais afectados pela seca.
Os sonhos são como nuvens que se movem nos céus com a ajuda do vento. Num instante eu tinha saltado de Portugal para Moçambique e olhava extasiado para o Clube Naval que tinha sido fundado na baía de Thungo, perto do lugar onde, no passado colonial, existiam as oficinas de apoio às lanchas da Marinha Portuguesa. Barcos e barquinhos a perder de vista, turistas de toda a África, da Ásia e da Europa a gozar o sossego e o maravilhoso clima daquele paraíso terreal.
O Lago Niassa é um dos maiores lagos africanos e por isso mesmo um enorme tesouro que tinha calhado em sorte a Moçambique. Na televisão corria o noticiário da hora de almoço e um qualquer político anunciava que o preço da água ia aumentar 10%, pois as negociações com o Malawi e a Tanzânia não tinham terminado da melhor forma e era necessário gerir a fatia de água que coube a Moçambique com o máximo cuidado. Nos últimos 30 anos, o nível do grande lago tinha descido substancialmente e não se previa que as coisas melhorassem no futuro próximo.
Tinha sido construida uma estrada circular que ligava Metangula a Meponda e Lichinga, pelo que era possível fazer uma viagem à capital do distrito via Meponda com regresso via Maniamba. Autocarros faziam a ligação a estas cidades que tinham crescido imenso com o turismo e a viagem que totalizava 240 Kms fazia-se com apenas um litro de água. Nos carros ligeiros um litro garantia quase mil Kms e nos barcos de recreio que se espalhavam pela baía era nulo o consumo, pois uma bomba apropriada cupava a água necessária, extraía o hidrogénio de que necessitava e devolvia o excedente ao lago.
Barcos à vela também existiam, pois velejar era um hábito deixado pelos velhos colonos portugueses que ainda contavam aos mais novos como o Vasco da Gama chegou de Lisboa à Índia sem outro combustível que não fosse o vento. E também kitesurf para os mais radicais que gostavam de armar ao pingarelho e exibir os músculos para garina ver.
Todos os aumentos de preço são um problema e o da água em primeiro lugar, pois sendo cada vez mais rara ninguém podia viver sem ela. Para beber ainda havia a cerveja mas esta era feita com água e não tardaria que o preço subisse também. E para tomar banho e tirar o cheiro a catinga a água era indispensável. Os sistemas de bombagem que existiam nas margens do Lago eram fiscalizados por uma esquadrilha de lanhas que não parava, dia e noite, e os contrabandistas que carregavam água, serra acima, para os lugares onde a não havia eram cada vez mais e mais atrevidos.
Os três países que circundavam o lago não se entendiam e cada um acusava o outro de usar mais água do que tinha sido estipulado no convénio firmado entre eles. O Malawi, ainda saudoso dos tempos da Niassalândia em que mandava sozinho em toda aquela riqueza, não via com bons olhos a água que Moçambique consumia. Tal como a velha questão das Ilhas de Likoma, eles acham que até bater nas praias moçambicanas toda a água é sua, Moçambique não teria direito nem a lavar os pés sem a sua ordem. Vá lá, vá lá que Portugal ainda conseguir resolver essa quezília, estabelecendo as suas águas territoriais, embora tendo que ceder a propriedade das tais ilhas que ficam dentro das águas moçambicanas.
Bem, como não podia ficar deitado na cama a olhar para o tecto e pensar nestas modernices todas, saltei da cama lavei a cara com água fresca e limpei a mente para enfrentar esta dia 2 de Junho de 2023, pois o ano de 2060 ainda vem longe e já não devo andar por cá nessa altura. A menos que alguém descubra a fonte da eterna juventude e me conte o segredo para eu ir lá beber um trago e ganhar anos de vida!
quinta-feira, 1 de junho de 2023
Fim da linha!
Segui todas as pistas possíveis, consultei os mais conhecedores das Picadas do Niassa, encontrei o organizador dos convívios anuais do Batalhão a que pertenceu o Zé Gato e acabei de falar com ele ao telefone.
Infelizmente para descobrir que o Zé já partiu deste mundo, há alguns anos. Bem gostaria de saber se ele viveu uma vida normal, depois daquilo que lhe aconteceu na guerra, mas o meu interlocutor também não sabe. Como o Batalhão a que pertenciam saiu de Estremoz, é ali que realizam grande parte dos convívios e sendo um homem do norte (embora também não tenha descoberto onde era a sua residência) o nosso herói não era muito assíduo nesses eventos.
Falei também com o Manuel Sousa, outro membro do mesmo batalhão, que ficou ferido na mesma emboscada e vive, por causa disso, preso a uma cadeira de rodas, desde então. Um era condutor-auto, o outro especialista em transmissões e ambos foram feridos naquela picada que eu tão bem conheço, entre a missão anglicana de Messumba e a povoação de Nova Coimbra, onde estava acantonada uma das companhias do batalhão. Outro dos ocupantes dessas viaturas que foram emboscadas pelos "turras" da Frelimo era um furriel que morreu no local.
Vários escritos sobre a Guerra Colonial referem que aquela missão era um conhecido covil de turras. O padre dava-lhes abrigo e jogava com as autoridades portuguesas com um pau de dois bicos.
Os heróis da Guerra Colonial!
Só quem por lá passou sabe o que foi aquilo. Mortos, feridos e estropiados, ora física ora moralmente. A cambada que nos governa, hoje, já nasceu depois do 25 de Abril e não sabe o que isso representou nas nossas vidas. Muitos aleijados continuam vivos e ninguém os vê como heróis, só os mortos têm direito a uma lembrança, uma estátua ou um mural, onde o seu nome foi cravado na pedra.
No meu último post falei do Zé Gato (José Augusto Tavares da Silva) que foi evacuado para a Metrópole com 5 buracos de bala no corpo. Esse ainda teve direito a um louvor e um prémio atribuido pelo governador de Moçambique, mas herói não é, porque teve a sorte de não morrer.
Não sabia nada deste amigo e camarada que vi pela última vez por volta do Natal de 1966 e, ontem, gastei o meu tempo a investigar até descobrir a que batalhão ele pertenceu e a sua identicação completa. Não foi muito difícil lá chegar, até o compadre Eduardo ajudou com um comentário em que confirmou que foi o Batalhão de Cavalaria 1879 que foi substituir o seu, em Metangula. O Zé ficou lá para o que desse e viesse e o meu compadre veio-se embora satisfeito da vida por se ter safado daquela enrascada sem mal de maior.
Ainda não descobri se o meu camarada do Exército é vivo ou morto, mas descobri a pessoa que tem organizado, ano após ano, o convívio do Batalhão e vou tentar o contacto com ela para saber o resto da história.
O Ministério da Defesa devia mandar compilar uma lista de todos os combatentes que entraram nesta guerra e guardá-la como coisa importante na Torre do Tombo. Se o não fizerem, dentro de alguns anos ninguém mais se lembrará disso, será uma memória distante, como a Batalha de La Lys, em que morreram milhares de portugueses, em defesa de uma causa que não era nossa.
Nota-se que o Exército tinha uma orgânica montada e as unidades mobilizadas estavam muito bem documentadas, algumas até com foto de perfil de cada membro. Ao contrário, na Marinha nem sabem por onde a gente andou. Saía à Ordem do Dia que íamos destacados para o Corpo de Marinheiros do Alfeite e daí desaparecíamos a caminho de África. O comandante Sanches de Baena quis publicar um livro com esses dados e os erros são aos montes, assim como as omissões. Há camaradas meus que passaram anos em África e segundo esse livro nunca saíram de Lisboa.
A esquadrilha de lanchas do Lago Niassa viu por lá passar centenas de filhos da escola, mas saber quem e quantos foram só o diabo é que sabe. E sem essas lanchas a vida dos soldados que fizeram serviço naquela área teria sido um inferno muito pior do que já foi. Sem transportes, sem mantimentos e perdidos a mil quilómetros do Oceano Índico, acontecer-lhe-ia o mesmo que a David Livingston, morreriam no caminho.
Talvez ainda volte a este assunto de novo, dependente daquilo que descobrir sobre o herói aqui referenciado!


























