quinta-feira, 26 de março de 2026

Correr o fado!

 

O fadista alentejano!

Já escrevi algumas vezes sobre "correr o fado" que era uma coisa que assustava os antigos, como a minha avó que nasceu na última década do século XIX e me criou como o seu "menino de ouro"!

Histórias de lobisomens e coisas ruins, fantasias metidas na cabeças de pessoas com pouca instrução e nenhum conhecimento do mundo por párocos de freguesia que viam o diabo em todo o lado e queriam garantir o céu aos seus "fregueses" (paroquianos) a qualquer custo. O diabo era o mal que Deus permitiu que andasse pelo mundo a tentar as almas para provar que elas eram merecedoras de ir para o céu, depois da sua efémera passagem pela terra.

Um moço namorava uma linda rapariga da pescaria. Quando achou tempo de se casar, propô-lo à rapariga, para começarem a fazer os preceitos da classe. Mas ela disse em resposta: “Casar não; eu não posso casar” e deu em chorar que nem uma videira. O moço ficou admirado, tanto mais que sabia que a rapariga lhe tinha amor. Instou com ela para que lhe dissesse os motivos. E a rapariga sempre: “Não posso dizer! Não posso dizer!” E por mais que o rapaz voltasse a instar, ela confirmava: “Não posso casar! Não posso casar!” Então o rapaz perguntou-lhe se era coisa de honra. “Não há nada de honra, juro-te !”, e chorava. O moço disse que lhe tinha de dizer à força, custasse o que custasse; se era coisa que ele pudesse remediar, nem que arriscasse a vida, que o fazia. Então, ela contou: “Sou bruxa! Tenho que correr o fado!...” Ele perguntou-lhe: “Não há remédio para isso ?” – “Há. Tu podes quebrar o meu fado, mas arriscas a tua vida! Se quiseres valer-me, fazes o seguinte: Eu passo logo à meia-noite com as minhas companheiras junto do castelo. Sou a sétima. Quando chamarmos Lulu! Lulu! – que é o chamadoiro do Diabo – tu estás dentro de um S. Selimão de seis pernas, riscado no chão, enlaças-me com uma corda e arrasta-me para dentro e assim quebrarás o meu fado.” O rapaz foi uma hora antes, riscou o S. Selimão e pôs-se à espera. Quando elas vieram, contou até à sétima e enlaçou-a, arrastando-a para dentro do S. Selimão. As outras bem quiseram chegar-lhe, mas o siglo afugentou-as e assim se quebrou o fado da rapariga, que casou com o rapaz.

Esta é uma das histórias do anedotário poveiro, no que se refere a correr o fado e que vos deixo aqui para pensarem no assunto. Se acreditam nestas coisas, não saiam de casa à noite sem levar um espelho no bolso e um crucifixo pendurado ao pescoço.

Corredor é a pessoa que tem que correr o fado, quer dizer, durante a noite toda vai percorrer um caminho onde vai passar a correr por sete pontes, sete fontes, sete montes, sete encruzilhadas, sete portelas de cão. O corredor é um ser mutante, pode assumir a forma de lobo, de cão ou outro animal. Quando se encontra um, para quebrar o fado deve fazer-se sangue, isto é, fazê-lo sangrar.

Agora, mais a sério, ontem falei com a Drª Patrícia que determinou (pelos poderes que tem) que o meu fado começa no dia 15 de Abril. No primeiro dia trata-se apenas de fazer uma colheita de sangue, registar o meu peso, a minha altura para prepararem o "caldinho" que me será injectado nas veias no dia seguinte. Serão 6 horas de castigo, sentadinho no cadeirão e armado de paciência! O primeiro é que custa mais, disse ela, se correr bem (?) os seguintes serão mais fáceis!

As suas últimas instruções foram para eu gozar a Páscoa, saborear o pão de ló, enquanto ela tira duas semanas de férias e se prepara, ganha coragem, para mais um semestre de trabalho tratando os doentes contaminados pelo bicho-mau que recorrem ao hospital em que trabalha. Se calhar, vou vomitar tudo o que comer, quando começar o tratamento, e foi por isso que ela me recomendou que saboreasse o pão de lá!

2 comentários:

  1. Estás no caminho no caminho certo amigo e vai correr tudo bem!
    Beijos e um bom dia!

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  2. O meu sincero desejo de que a situação seja o mais razoável possível.
    Força nisso, Amigo!
    Um abraço.

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