sexta-feira, 27 de março de 2026

Jantar de fuzileiros!

 Todas as últimas sextas-feiras de cada mês, é dia de reunião e jantar, ora com ora sem fados, dos fuzileiros da Póvoa. É hoje, ás 20.00 horas, mas não me sinto com vontade de ir. Já almocei fora, na Tasca do Paradela, e não me sinto com vontade de mais "comida". Aliás, o petisco do almoço não estava nada ao meu gosto e já lhe fiz uma cruz em cima, ficará fora das minhas escolhas por algum tempo.

A companhia talvez ajudasse a combater o meu mau humor, mas sinto-me cansado e sem vontade de dar mais um passo, hoje. Fiquei a pensar em quantos serão os fuzileiros da minha terra, porque nos jantares não aparecem mais que 20! Sei de uns poucos que se formaram depois do 25 de Abril que ainda não apareceram a nenhum daqueles almoços ou jantares em que estive presente. É tudo malta da pesada, do tempo da Guerra Colonial!

O tempo passado em conjunto nos dois, ou mais, anos de comissão criaram um laço diferente que não será possível repetir num ambiente normal em que cada um vai para sua casa ao fim de semana. Havia coisas que partilhávamos com o guarda-costas, quando estávamos de serviço de sentinela, que nem aos irmãos, ao pai ou à mãe coisas que se passavam nas nossas vidas.

Na segunda comissão já foi um pouco diferente, mas na primeira foram 30 meses consecutivos com um dia de serviço em cada três. E durante aquelas 24 horas, seguiam-se duas horas de sentinela, duas de guarda-costas e duas de descanso. Around the clock, como diz o inglês! Nas duas de sentinela, olhos atentos fixos no matagal, ou fosse o que fosse que nos rodeava, e os ouvidos atentos ao camarada que fazia de guarda-costas por conta de quem corria a conversa.

Ouvi histórias de bradar aos céus! Coisas alegres, coisas tristes, histórias de amor e paixão, umas bem sucedidas outras, rapidamente, esquecidas. Davam-se e recebiam-se conselhos, carpiam-se mágoas e sonhava-se um futuro risonho para depois daquele período complicado das nossas vidas. Como os serviços eram feitos sempre, ou quase, por camaradas dum mesmo pelotão (cerca de 40 homens) aquilo funcionava como uma verdadeira família em que todos eram irmãos.

Daí que tenha ficado esta ligação forte que os faça correr aos encontros cada vez que acontecem. No caso dos fuzileiros da Póvoa é um pouco diferente, pois são todos eles de diferentes idades e quase ninguém foi camarada de comissão do outro que está sentado na cadeira do lado. No máximo fizeram o Curso de Fuzileiros em conjunto, ou talvez a recruta e Juramento de Bandeira. Os que conheço melhor são da minha idade e de 3 escolas seguidas, o Fernando de setembro/61, eu de Março/62 e o Octávio de Setembro/62.

Nós somos os verdadeiros filhos da Escola de Fuzileiros que abriu no verão de 1961 para formar gente para a guerra que tinha começado, em Angola, no princípio desse ano. E com figuras como o Maxfredo, o Patrício ou o Pascoal Rodrigues como instrutores que mais tarde acompanharam os seus formandos na guerra em África. O Maxfredo como comandante do DFE1, em Moçambique, o Patrício como comandante da CF6, também em Moçambique e o Pascoal Rodrigues como comandante do DFE4, em Angola.

Os fuzileiros mais modernos (termo usado na Marinha para designar os novatos) já foram formados em Vila Franca de Xira e seguiram, depois, para Vale de Zebro, lugar que deu o nome aos famosos botes de borracha usados pelos fuzileiros, para um curso intensivo que durava cerca de seis meses para reforçar/treinar os futuros combatentes nos diversos aspectos que mais interessavam. Com o treino de tiro, orientação e combate em primeiro plano.

Os jantares também servem para recordar estas coisas, as aventuras e desventuras vividas durante o curso e as amizades nascidas dessa convivência que servem de combustível para manter a chama acesa. Hoje, deveria lá ir para abastecer um pouco o meu depósito que está a ficar nas lonas, mas, de facto, não me sinto com forças para isso. Acabei de enviar um SMS ao organizador para levar um abraço para os "filhos da escola" e que me desejem sorte, se querem que eu volte a aparecer junto deles, num futuro próximo!

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