Qualquer noticiazita menos bem filtrada faz a minha mulher entrar em pânico. Hoje, foi a questão da água de consumo doméstico. Alguém apareceu na TV a dizer para não bebermos água da torneira, pois os rios galgaram as margens e a água andou por sítios que ninguém pode imaginar, antes de chegar à torneira da sua casa. Veste-te e calça-te e vai buscar o carro, temos que ir ao hiper buscar garrafões de água, pois a da torneira está imprópria para consumo, gritou-me ela!
Dei-lhe logo dois gritos e chamei-lhe uns quantos nomes que a fizeram ir pela porta fora, em passo de corrida para a pastelaria onde costuma tomar o desjejum com o clube do serrote que leva muitos anos de prática desse desporto praticado por quase todas as donas de casa. Não me vale a pena tentar mudar a minha companheira, ela já vai nos 80 e se não aprendeu até agora nem vale a pena tentar.
Cabe à Câmara de cada concelho saber onde é recolhida a água que servem aos seus clientes (que a pagam bem cara, devo acrescentar) e se houver razão plausível para tal, então sim, emitir um aviso à população para ter alguns cuidados ou, em caso limite, fechar a torneira até nova ordem. Para minha felicidade a água aqui de casa vem do rio Cávado, um dos menos poluídos de Portugal e é pescada bem perto do Gerês, onde, no máximo, existem grandes depósitos de cinzas que sobraram dos incêndioa de verão e podem representar algum risco.
A escala hierárquica que é preciso percorrer até poder garantir ou proibir o uso dessa água começa no engenheiro da Câmara que é responsável por esse serviço. Este deve contactar a hidráulica que bombeia a água do rio até ao depósito municipal. Daí para cima, até chegar ao Ministério do Ambiente, não conheço os caminhos, mas eles sim, pois são pagos para isso. Além do mais, não conheço qualquer exemplo de que tenha sido necessário suspender o consumo público de água, excepção feita àquela zona das pocilgas de Leira que transforma o rio Liz num canal de esgoto, durante o verão.
Quando viajei para a Índia (em serviço) o primeiro aviso que me fizeram foi para beber água apenas de garrafa e ser eu mesmo a abri-la para não correr o risco de a terem enchido na torneira mais próxima. Fiz tudo direitinho, como me recomendaram e, mesmo assim, ao 3º dia fui acometido por uma diarreia incontrolável que por pouco não pôs em risco o programa que ali me tinha levado.
Lembrei-me de quantas vezes andei no mato, em Moçambique, e bebi água em qualquer poça ou regueiro que nos aparecia pela frente. Com o calor e a sede a nossa língua cola-se às paredes da boca e é muito doloroso o processo de soltá-la e continuar a respirar. Encher a boca de água para enxaguar a língua e depois cuspi-la fora para evitar o risco de fazer entrar no estômago uma caterva de micro-organismos, sabe Deus de que família.
Mas a notícia mais falada de ontem, à noite, foi a queda de um troço da A1 (?!?!?!) nas águas do rio Mondego. Num lugar como aquele que tem um histórico de cheias e episódios repetidos de acidentes diversos, como é que a engenharia que construiu aquela autoestrada assentou o tapete betuminoso em cima de um talude de saibro? Lugares bem menos perigosos, como o Vale do Vouga, por exemplo, têm longos viadutos que atravessas a zona de cheias de lés-a-lés.
A A1 foi a primeira autoestrada do país e foi feita aos bochechos. No tempo de Salazar, construíram-se dois troços, um de Lisboa a Vila Franca e o outro do Porto até aos Carvalhos. Depois foram precisas muitas empreitadas, de cerca de 30 Kms cada, para unir Vila Franca aos Carvalhos. A última dessas etapas foi de Condeixa até à Mealhada, já nos tempos de Cavaco Silva e do seu ministro das Obras Públicas, Ferreira do Amaral, nos fins de 1991.
E refiro isso, porque sendo o último troço foi feito nos tempos mais modernos, onde os recursos eram melhores e a tecnologia de construção de pontes e viadutos já não tinha segredos para ninguém. O cruzamento de todos aqueles terrenos alagadiços do Vale do Mondego, merecia um viaduto mais longo, mais alto e com fundações apropriadas para o suportar. Ontem viu-se como um pequeno rego de água perfurou o talude fez desmoronar um trecho do tapete betuminoso com a maior facilidade.
Agora, estão todos reunidos, no local do crime, para estudar um método de tapar a brecha e reabrir o trânsito. O taxista do Ferreira do Amaral que viveu por conta das portagens da ponte 25 de Abril e ainda da Vasco da Gama, nestes últimos 30 anos), deve estar regalado, em casa, a assistir ao espectáculo que as televisões (todas) lhe fazem chegar ao seu televisor, sem sentir o mínimo remorso de ter deixado fazer aquilo e ainda receber os parabéns, quando a obra foi inaugurada.
Sempre quero ver quem vai garantir a qualidade do remendo que lá vão fazer à pressa, pois a A1 tem que ser aberta em questão de algumas horas!
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