Ontem, coisa de que não me lembrei, nem vi e nem li nada sobre o assunto, até ao fim do dia, foi o Dia do Combatente, uma efeméride que me diz respeito por ter andado 5 anos de G3 na mão a correr, ora atrás ora à frente, dos turras da Frelimo. À noite, já com a pestana meio descaída com o sono, dei com a notícia no Facebook e vi um velho camarada fuzo de bandeira ao ombro a desfilar, em Belém.
No meio da encrenca que foi aquela guerra, eu posso considerar-me um homem de sorte. Primeiro por ter feito a tropa na Marinha, cujo pessoal teve direito a uma assistência no teatro de guerra que os outros, em especial os do Exército, não tiveram. Nós, com raras excepções, tivemos sempre boas instalações com cama e mesa a horas certas. Eles, pobres coitados, tiveram que fazer das tripas coração para chegar vivos à Metrópole, após dois anos de comissão.
Alguns deles ainda tiveram a sorte de repartir o tempo em duas metades, uma má, no meio do mato e passando por todas as vicissitudes da guerra, outra boa, num canto sossegado, onde os ecos da guerra mal chegavam. Mas houve também os infelizes que dividiram o tempo em mau e muito mau, passando os cerca de 24 meses em zona de guerra. E houve casos que ficaram na História daquela guerra, como o caso da Companhia 7 de Espadas que no primeiro embate com o inimigo, na província do Niassa, teve tantas baixas que deixou a unidade inoperacional e teve que regressar à retaguarda para se recompor.
E também tive a sorte de ir para Moçambique dois anos antes de a guerra ali ter começado. Na prática já tinha terminado a comissão de serviço, quando foram disparados os primeiros tiros e só porque me voluntariei para acorrer a Metangula, em socorro dos 6 telegrafistas que ali prestavam serviço e dos outros 6 marinheiros que constituíam a tripulação da pequena lancha Castor que o Comando Naval ali colocara, no ano anterior. Por conta disso tive ali, naquele recando do mundo, o meu baptismo de fogo e convivi com a morte e de um camarada.
No início da guerra as coisas eram mais fáceis, os guerrilheiros ainda não tinham ganho qualquer experiência no terreno e as armas eram poucas. Além da famosa AK47 que ainda hoje é usada em toda a África, quer pelos militares quer pelos que lutam pelo outro lado, tinham apenas meia dúzia de metralhadoras ligeiras e alguns LGF (Lança Granadas Foguete) para um território imenso como era o norte de Moçambique (Niassa e Cabo Delgado, mais tarde também Tete).
Conforme foi decorrendo o tempo, a guerrilha foi aperfeiçoando os seu métodos, vieram mais e melhores armas e também as minas que foram um quebra cabeças para as nossas forças. Tivemos mais feridos, em Moçambique, por minas do que por balas disparadas pelo inimigo. As Berliets e Unimogs do Exército começaram a "enfeitar" as bermas das estradas de terra batida por onde circulavam e que eram, facilmente, mináveis. Um buraquinho escavado com a ponta do sabre, uma pequena caixa plástica metida lá dentro, uma mão cheia de terra espalhada por cima para esconder a ratoeira e o próximo a passar arriscava-se a ficar sem pernas.
Alheado dessa realidade e levado pela força da inexperiência regressei a Moçambique para outra comissão de 2 anos e que tal como da primeira vez durou quase dois anos e meio. Vivi a guerra mais de perto. Vi-me embrulhado em tiroteios sem fim contra inimigos invisíveis escondidos no mato africano. Se acertei ou não em algum deles nunca o soube nem saberei. Estive também naquela explosão da mina que cortou rentes as duas pernas de um soldado alentejano que estava ao meu lado, na bicha para descer ao riacho e encher o cantil de água. Ele deu o passo fatal que despoletou a mina, eu escapei ileso por milagre.
Havia unidades do Exército, ora simples pelotões, ora companhias completas, espalhadas por toda a província do Niassa, vivendo em condições miseráveis em acampamentos feitos com panos de tenda e pouco mais. Só Deus sabe como escaparam da morte, da fome e do medo, mas há muitos que sobreviveram com mazelas psíquicas que os acompanharam ou acompanharão até à hora da morte. São eles as testemunhas vivas do mal que uma guerra pode provocar no corpo humano.
Rasgaram-se pistas de aterragem por todo o lado para permitir que o abastecimento lhes chegasse pelo ar, quando por terra era pouco menos que impossível. As Companhias de Engenharia e as suas máquinas foram vitais para conseguir esse resultado. E a Força Aérea Portuguesa (tão mal apetrechada que ela estava!) deu a ajuda necessária para que o correio para os combatentes e os mantimentos ali chegassem para lhes acudir às necessidades do corpo e da alma. Sem isso nunca teriam sobrevivido.
No princípio do ano de 1967, passei dois meses em Nampula para tratamento no hospital. Quando regressei fui destacado para ajudar a exumar um corpo que tinha sido enterrado no pequeno cemitério que tinha sido reservado para os combatentes ali falecidos. Fiquei admirado por ver que já ali havia seis campas e eu nunca ter presenciado qualquer enterro. Pequenas saliências no terreno, umas cruzes de madeira, parcialmente, roída pelas térmites e um rectângulo formado por tijolos burro pintados de branco indicavam o local , situado entre o portão da Base Naval e o Hangar do aeródromo, reservado aos infelizes que não tinham sobrevivido à experiência de guerra.
Pois, era disso que devia ter falado ontem, mas ninguém me ajudou a recordar a data. Conforme os anos vão passando e as recordações se desvanecendo na mente dos que regressaram vivos, como eu, cada vez menos nos acorrem estes pensamentos tristes. E ainda bem, pois as coisas tristes devem ser esquecidas e apenas guardadas na nossa memória as boas, aquelas que nos deram alguma felicidade!
















