Já morei em várias ruas de várias cidades de vários países!
Mas esta rua, onde vivo hoje será a última de todas essas que conheci. Desta não passo, estou velho demais para isso e, além de velho, doente também. Até aos 11 anos fui prisioneiro da minha família, mandava a mãe que não tirava o olho de cima de mim, mandava a avó que foi quem me embalou, desde o dia em que nasci. Num passado onde só tinha havido mulheres e cujos primeiros netos foram duas meninas, ele ficou em festa quando chegou o seu primeiro neto, euzinho da Silva. O meu pai mandava pouco, o trabalho obrigava-o a estar sempre ausente.
Dos 11 aos 15 anos fui prisioneiro dos Jesuítas, num Colégio que administravam com mão de ferro. Ali fiquei 4 anos da minha vida, perdido entre homens de saia preta e num lindo mês de Maio abri as asas e voei de lá até esta rua e assentei arraiais numa velha casa que (já não existe) ficava do outro lado da rua a menos de 20 metros da minha janela que me deixa espreitar quem passa na rua.
Depois disso, já passei por vários lugares, alguns em curtas permanências, outros com estadias mais prolongadas, mas há 23 anos regressei a este cantinho que já conhecia, desde os meus 15 anos de idade. E vim para ficar, embora nessa altura ainda eu não estivesse ciente disso. É normal o homem não conhecer o seu destino, desconhecer o que será da sua vida no dia, mês ou ano seguinte. Se assim não fosse a vida seria uma pepineira sem o menor interesse. É o desconhecido que nos atrai, não fazer ideia do onde, como e quando a nossa vida dará o próximo salto.
Já foi uma rua muito concorrida, antes do advento dos automóveis como principal meio de locomoção. Quando todos andavam a "calcantes" a minha rua era como como a Via Apia de Roma, andava sempre cheia de gente, para cima e para baixo. Ela partia do centro da Vila - a cerca de 100 metros da Câmara Municipal - em direcção a nordeste e dava acesso aos bairros novos construídos a nascente da via férrea que passava aqui mesmo ao lado.
Agora é uma rua deserta, mora cá pouca gente e os passantes são raros também. A juventude prefere lugares mais abertos, onde não haja tantas restrições de espaço, como acontece aqui, agora. Trânsito só num sentido e lugares para estacionar nenhum. Foram por cá ficando os velhos, cujo destino final será o cemitério, onde não se paga renda, nem prestação ao banco e ninguém se queixa das condições em que o deixaram.
E um facto engraçado é que moram cá poucos homens, talvez não passe de meia dúzia. E outro facto que também pude registar é nem sempre morrem os mais velhos primeiro. Eu mantenho na minha memória uma lista dos homens por idade, para tentar adivinhar quando será a minha hora de fazer a mala e mudar-me para a última morada. O último que partiu já tinha ultrapassado a fasquia dos 90, por conseguinte foi na vez dele. Mas o anterior, o meu vizinho da frente, foi na casa dos 50, alguém ficou a ganhar algum tempo de vida com a partida antecipada desse rapaz.
Agora estou em terceiro lugar, tenho na minha frente o António de 88 anos e o Ezequiel de 84 e atrás de mim vem outro António que está quase a completar 80 e já anda todo marreco com o queixo a querer tocar nos joelhos. Mas qual será o primeiro a embarcar ninguém sabe. Eu acho-me o mais gasto deles todos, mas é o S. Pedro quem guarda o «Livro da Vida», em que está registada a data em que nascemos e aquela em que o Criador decidiu devolver o nosso corpo ao pó de onde saímos. Pelo menos é o que diz a cantilena que o padre recita em cada enterro: - és pó e ao pó hás-de tornar!
Mulheres há muitas, algumas solteiras e a maioria viúvas, casadas poucas, visto que os homens já se foram sem pedir desculpa. Alguns deles, além de vizinhos, eram meus amigos e sinto a falta de alguns. Havia um, o Zé do Casino, que perguntava sempre por mim, quando se cruzava com a minha mulher e fazia o mesmo, perguntando pela minha mulher cada vez que se cruzava comigo. Então, a D. Emília está bem? Depois ficou doente, com insuficiência respiratória e andava na rua com uma mochilita em que carregava uma botija de oxigénio, em casa é que ele não queria ficar. Quanto mais piorava a sua saúde mais ele perguntava pela nossa, devia ser uma espécie de queixume ao perceber que a dele estava cada vez pior. E um belo dia apagou-se aumentando o número de viúvas da minha rua!
O Quim do Varzim, um defesa central com quase 1.90 de altura que parecia vender saúde ficou também doente, de um dia para o outro e foi atrás do Zé que morava na casa em frente, deixando outra viúva sozinha. Ambos na casa dos 80, era capaz de jurar que nenhum desses dois chegou à minha idade, ou seja, mais um aviso que a minha data de validade está quase a dar o último suspiro. Depois disso só cá ficamos mais um tempinho até o S. Pedro fazer a necessária arrumação, lá em cima, de modo a arranjar-nos um espaço, onde caibamos sem esbarrar no vizinho do lado.
Por vezes dou comigo a pensar que, a não haver reincarnação, coisa em que poucos acreditam, aquilo lá em cima deve estar um caos e é um verdadeiro milagre o S. Pedro dar conta do recado. Então com a guerra da Ucrânia em que os russos têm morrido às centenas de milhar, sem falar no Netanyahu e no Trump que se têm esforçado por dar a sua contribuição, o pobre do santo que já deve sentir o peso da idade - anda por cá, há mais de 2.000 anos - deve ver-se grego para não deixar descambar aquilo num caos.
Todos os dias, à meia noite, abro a porta da minha casa e digo para o meu cão: vai Nero, tem cuidado com os carros, faz duas ou três mijinhas que depois vais para a cama e só de manhã tens direito a mais. Dos carros ele desvia-se com habilidade escondendo-se atrás dos pilaretes de aço inox que devem ter custado bom dinheiro à Câmara e que servem apenas para impedir os carros de estacionar. Se vir alguma pessoa a aproximar-se, coisa rara, regressa, apressadamente, para evitar encontros com desconhecidos!
A Via Aurélia, em Roma, atravessa a cidade de lés a lés e é um martírio circular dentro dela, em hora de ponta. Já é assim desde os tempos do imperador romano que lhe deu o nome e nunca será uma rua deserta como esta a que chamo «A minha rua»!