A de ontem era velha e feia. A de hoje é famosa e morreu louca. Aliás, como segundo cognome, era assim mesmo chamada, A Louca. Estou a falar de D.Maria I, rainha dos Estados Unidos de Portugal, do Brasil e dos Algarves.
Segundo reza a História, o culpado pela sua loucura foi o seu pai, D.José I (aquele que se pode ver, montando o seu cavalo, no Terreiro do Paço) por ter nomeado para o cargo de Primeiro Ministro o famoso Marquês de Pombal que, enquanto esteve à frente dos destinos de Portugal, fez das boas e das bonitas. A pior de todas, segundo D.Maria, foi ter preso e mandado matar a família Távora e corrido com os Jesuítas de Portugal. Por isso o seu pai, D.José, está a arder no inferno e lá ficará por toda a eternidade. E ela perdeu o juízo de tanto cismar nisso.
O que me fez decidir falar nisto foi a notícia que li nos jornais de hoje, sobre a falha nos pagamentos de prémios de jogo pela Santa Casa da Misericórdia. Imagino que seja mais uma precipitação de algum jornalista que preferiu dizer mal da coisa em vez de investigar o que motivou essa anormalidade e explicar ao público quando é que tudo voltará a entrar nos eixos que é, ao fim e ao cabo, o que interessa a quem lê os jornais.
Imensas obras, em Portugal, carregam o nome de D.Maria e, acredito eu, metade da população deste país não sabe porquê. As mais conhecidas são, para as gentes do Porto, a ponte ferroviária que liga o Porto a Gaia e, para as gentes de Lisboa, o hospital D.Maria.
A Casa Pia de Lisboa, a Real Academia da Marinha ou as Misericórdias são as grandes obras que nos legou e que bom jeito nos têm feito. Foi durante o seu reinado que aconteceram as Invasões Francesas e na sequência delas a Guerra Peninsular que juntou os espanhóis aos franceses para nos virem chatear a moenga, felizmente, pela última vez. E também é dessa altura o tão falado Tratado de Badajoz que foi responsável pela subtracção dos territórios de Olivença do Mapa de Portugal.
Teve sete filhos e só dois atingiram a maioridade. Um viveu até aos 59 anos de idade e viria a ser rei de Portugal, D.João VI, o outro era uma menina que, após ter três filhos, faleceu antes de fazer os vinte anos de idade. Talvez a razão tenha sido a consanguinidade, uma vez que o seu marido e pai das crianças era irmão do seu pai, D.José. Hoje sabe-se e evita-se este tipo de ligações, mas naquele tempo era mais importante preservar a continuação da realeza mandante que outra coisa qualquer. Estou aqui mesmo a imaginar o rei D.José a dizer ao irmão:
- Pedro, pega na tua sobrinha Maria, casa com ela e trata de a engravidar depressa para garantirmos a sucessão do reino, antes que apareça por aí algum príncipezito espanhol e nos arranje alguma encrenca. Com os problemas todos que temos por cá, não podemos correr o risco de ter que entrar em guerra com os nossos vizinhos de novo.
Como se viu, não adiantou muito, pois à boleia dos franceses lá vieram eles chatear-nos mais uma vez. Entretanto já passaram mais de dois séculos e parece que perderam, de vez, a ideia de reverter a situação criada pelo filho do Conde D.Henrique de Leão, no Século XII.