Uma notícia difundida, ontem, pela televisão, dando conta da visita surpresa do nosso presidente da república ao Hospital S. Francisco Xavier, remeteu-me, de novo, para a minha vida como grumete fuzileiro da Marinha de Guerra Portuguesa. O homem não pára quieto e aparece em todo o lado, por vezes de surpresa, pondo em pânico aqueles que têm medo de ser apanhados em falta.
Durante o tempo de permanência na Armada, eu fiz centenas de serviços. Comecei com os de «Plantão», na Escola de Fuzileiros, ainda nos tempos da recruta, passei pelos de sentinela, na Escola e no Corpo de Marinheiros do Alfeite, e acabei a fazer serviço de guarda, dia sim dia não, em Moçambique, enquanto durou a comissão na Companhia 2.
Fazer o serviço não tinha nada de complicado, o que nos complicava a vida era a fiscalização permanente, e muitas vezes mal intencionada, dos nossos superiores que, a exemplo do que fez ontem o Professor Marcelo, apareciam de surpresa tentando apanhar-nos em falta. Parecia dar-lhes um prazer "orgásmico" meter-nos no «Livro» e ver-nos apanhar um castigo que em nada os beneficiava.
O meu primeiro serviço foi «Plantão às Casas de Banho» da Parada da Escola de Fuzileiros que ficavam quase em frente da porta do gabinete do Oficial de Serviço.
Corria o mês de Abril de 1962 e eu, enfiado numa farda de cotim cinzento, onde caberiam à-vontade dois como eu, afivelei o cinturão, de onde pendia o sabre de uma espingarda Mauser, e apresentei-me no posto de serviço que me tinha sido destinado. Eram 20.00 horas e a única autoridade que vi por perto foi o «Cabo de Quarto» que, eu já sabia, era o meu primeiro superior numa escala hierárquica, o qual dependia de um sargento e este de um oficial, que estariam de serviço até às 08.00 horas do dia seguinte.
Estar de serviço era uma forma de falar, pois a seguir à rendição da meia-noite iam todos para a caminha e até perto das 07.00 horas da manhã ninguém lhes punha a vista em cima. Mas havia sempre o risco de algum deles sofrer de sonambulismo e apanhar o plantão ou a sentinela a fazer o que não devia. Portanto, o meu primeiro serviço foi, basicamente, manter a porta do gabinete sob vigilância para não ser apanhado "a dormir".
O meu primeiro serviço de sentinela foi já depois de ter jurado bandeira e saber manejar a Mauser, naquela guarita que ficava ao lado da estrada Coina/Palhais, a cerca de 500 metros da Casa da Guarda, num sítio mais elevado, em relação ao pavimento da estrada. Era já perto da meia noite e eu mortinho por ser rendido e ir fechar as pestanas, vi a chama de um cigarro a brilhar, a cerca de 20 ou 30 metros da guarita onde me escondia. Fiquei atento a ver quem seria e o que faria ali àquela hora. Terrorista não era com certeza que eu ainda não tinha chegado à África.
A chama do cigarro apagou-se (desapareceu), passaram ainda alguns minutos, e de repente, como se tivesse surgido do nada, apareceu-me a figura gigantesca do Sargento Trindade que era o Sargento de Quarto nessa noite, a poucos metros de mim.
- Tu também fumas, perguntou ele?
- Às vezes, respondi eu, cagado de medo do que viria a seguir.
- Viste a chama do meu cigarro?
- Vi.
- Sabes o que te acontecia se fosses tu o fumador?
- Ia para o Livro.
- Não, seu estúpido, levavas um tiro no meio dos olhos e ias para os anjinhos. Não te esqueças disso, daqui a uns meses, quando estiveres em África.
E depois disto desandou e desapareceu no escuro da noite. Nunca mais me esqueci dessa lição e cada vez que acendia um cigarro, para ajudar a passar as infindáveis horas de sentinela que fiz, em Moçambique, escondia-me o mais que podia para não correr riscos.
As centenas de serviços que fiz, em Moçambique, primeiro na Machava e Loureno Marques e, mais tarde, no Niassa dariam para contar um cento de histórias e preencheriam com facilidade as páginas de um livro de tamanho médio, mas não vou meter-me nisso. Limito-me a despejar aqui, neste blog que é uma espécie de «Diário Inconfidencial», algumas linhas, cada vez que alguém me puxa pela corda.
Quanto à visita-surpresa que o Presidente da República fez ao hospital - não sei se sim ou não para apanhar alguém em contra-pé - foi motivada pelo novo surto de legionella, uma bactéria que teima em fazer-nos uma visita de vez em quando. Vejam aqui abaixo o que se diz sobre ela.
«Legionella pneumophila é uma bactéria ubiquitária e saprófita da água, não fermentadora de lactose, sendo nutricionalmente exigente. É oxidase positiva, catalase positiva e hidrolisa o hipurato. É um patógeno intracelular facultativo, apresenta um sistema de secreção tipo IV. Com este sistema de secreção, a bactéria é capaz de "Invadir" a célula hospedeiro, através da transferência de DNA pelo método de conjugação.»