Já cortei algumas figueiras, mas ainda me restam quatro grandes e uma pequena. Vá lá saber-se porquê, é a árvore que melhor se dá em minha casa. E a pequena não deve durar muito, pois ainda não provei um figo e estou farto de esperar. Dizem que só as figueiras velhas dão bons figos, mas eu não me sinto com paciência para esperar que ela fique velha. E também receio que a minha vida se acabe antes que termine a espera.
E, logo por azar, ninguém gosta de figos e eu, embora goste muito, não os posso comer por ser diabético. Agradecem os estorninhos (ou papa-figos como eu gosto de lhes chamar) que não me largam as figueiras. Eles só comem figos e diospiros e desaparecem logo que estes acabam. Só ficam por cá entre Agosto e Dezembro, depois disso ninguém mais os vê.
Esta figueira que vêem na imagem está mesmo em frente à minha janela, a não mais de 5 metros dos meus olhos e é um espectáculo ver os estorninhos chegar em bandos, logo pela manhã, e devorar os figos mal eles começam a inchar. Os pobres desgraçados nem precisam de amadurecer, são comidos antes de terem tempo de mostrar o que valem.
Ao fim do dia, voltam para a segunda rodada e assim não há figo que sobre cá para o rapaz. Às tantas, vou ter que fazer a vontade à minha mulher que insiste para que eu corte as figueiras todas. Afinal para que servem as figueiras se ninguém come os figos, pergunta ela com alguma razão. E os figos, quando começam a cair ao chão, embodegam tudo, continua ela. E depois o que comem os meus melros (os de bico amarelo que vivem aqui comigo o ano todo)? Alguém tem que lhes garantir o sustento, argumento eu resistindo à ideia de deitar as figueiras todas abaixo.
Porca de vida, ninguém está bem com aquilo que tem!






















