Na última fase da minha vida profissional comecei a ouvir esta palavra com certa frequência. As coisas não corriam bem na empresa e começaram a aparecer gurus que sabiam tudo e arranjavam solução para todos os problemas. Como a empresa acabou na falência, acredito que eles sabiam pouco da matéria que queriam impingir a quem lhes pagava as contas!
Qualquer reunião convocada para estudar o problema e a preconizada solução era um "brainstorm". Numa ocasião, perguntei ao Sr. Engenheiro que liderava a troupe de especialistas, o porquê de chamar brainstorm a uma simples reunião que servia para nós lhe explicarmos o nosso ponto de vista e eles darem a sua opinião, a partir do ponto de vista de quem nada tinha a ver com o assunto. A sua resposta deixou-me mais convencido ainda que só estávamos ali a perder tempo. Nós queremos ouvir as opiniões de todos, depois comparámo-las e tiramos uma conclusão que transmitiremos ao Conselho de Administração da empresa.
A técnica do brainstorm que eu já conhecia consiste em ouvir a opinião das pessoas sobre uma possível solução a aplicar para resolver um qualquer problema que nos afligisse no dia a dia da empresa. Só que na altura da mudança de século o problema era, praticamente, sem solução. O famosíssimo «Acordo Multifibras» que nos tinha protegido nos últimos anos, proibindo a importação de têxteis do Extremo Oriente, chegaria ao fim no dia 31 de Dezembro e as importações seriam livres a partir do dia seguinte.
Por mais voltas que dessem ao cérebro não havia solução para o problema. Nenhum especialista do mundo conseguiria inverter uma decisão que todos os grandes importadores europeus de roupa já tinham tomado, há muito tempo. Logo que as leis o permitissem partiriam para Hong-Kong, local ideal para negociar com os industriais chineses que aguardavam esse dia como se de uma lotaria premiada se tratasse.
Uma vez, já enervado com as saídas daqueles senhores engenheiros que cobravam uma fortuna para arranjar uma solução que não existia, eu disse-lhes: - eu conheço a solução para resolver o nosso problema, em vez de roupa passarmos a fabricar panelas de alumínio! Foi uma risada geral no Salão de Reuniões da nossa empresa, uma enorme sala, num 1º andar virado a sul, onde a luz e o calor do sol nos faziam ferver as ideias.
Talvez achem estranho eu estar a falar-vos disto, tantos anos depois de ter acontecido, mas é nas ocasiões difíceis em que temos que tomar decisões que podem não dar certo que o tal brainstorm se torna necessário e justificado. Quando me foi comunicado o diagnóstico da minha actual doença, juntei a família e perguntei-lhes a sua opinião. Devia submeter-me ao tratamento proposto pelos médicos ou deixar o destino cumprir-se e morrer, quando o corpo desistisse de lutar pela vida?
Penso que na cabeça deles não chegou a haver nenhum brainstorm. foram tão rápidos e unânimes a dizer "tratamento" que acho que nem tinham digerido a notícia ainda. Mas foi a decisão deles todos e eu não tinha maneira de fugir do problema, como daquela vez que disse aos entendidos em gestão de empresas que era melhor fazermos panelas de alumínio em vez de roupa, aceitei o castigo. E agora estou aqui sentado à espera que essa hora chegue ... e já não falta muito!
P.S. - Não se admirem de eu escrever muito, quando namorava e estava longe (na guerra, em África) escrevi uma carta à namorada que tinha 17 páginas!
Acredito que se o brainstorming fosse utilizado entre os portugueses poderiam surgir boas ideias: entre elas desligar uma Tv que só serve interesses woke. E que o façam rapidamente porque estamos a perder A NOSSA IDENTIDADE a uma velocidade nunca vista.
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