domingo, 5 de março de 2023

O Adolfo!

 Histórias verídicas com pessoas inventadas!

O Adolfo era filho de um empresário que, devido aos problemas políticos relacionados com a Revolução dos Cravos, decidiu vender a sua empresa e tornar-se gerente da empresa compradora. Ou seja, deixou de ser um pequeno empresário para ser gerente de uma grande empresa. Se pensam que os seus problemas ficaram resolvidos com esta mudança de vida ... estão bem enganados. Os comunas tomaram conta da empresa que entrou em auto-gestão e ele preferiu dar de frosques e arranjar emprego noutro lado. Fez bem, tornou-se meu colega de trabalho e por ali se ficou até (quase) ao fim dos seus dias.

Entretanto o Adolfo, adolescente a caminho dos 20 anos de vida, portava-se mal, não fazia aquilo que os pais mandavam, experimentou o mundo da droga e foi viver com um tio que era menos chato que o seu pai. Os anos foram passando, os estudos iam de mal a pior e os namoros desagradavam aos seus pais, especialmente à mãe. A mudança de residência para uma cidade do litoral, com muitas mais possibilidades de proporcionar uma "vida airada" ao nosso artista, convenceu-o a regressar a casa dos pais.

Uma vez que os estudos não o levavam a lado nenhum, o pai decidiu tirá-lo da escola e arranjar-lhe um emprego. E assim foi parar à empresa que o pai geria e tornou-se também meu colega de trabalho. Anos depois, o pai ganhou coragem para se tornar de novo empresário, arranjou crédito bancário e comprou a empresa que geria. Ainda teve que conviver com um restinho de sindicalistas de esquerda, mas rápido, rápido, essa fase passou de moda e as pessoas começaram a preocupar-se mais com as suas vidinhas que com as ideias avermelhadas do Dr. Álvaro Cunhal e seus apaniguados.

O Adolfo que, nos entretantos trabalhava comigo, na tentativa de aprender alguma coisa da Indústria de Confecções, de um dia para o outro viu-se promovido a patrão, com gabinete próprio, em cuja porta eu tinha que bater pedindo licença para entrar. Engraçado, o pai tratava-me como um igual e depositava plena confiança nos meus actos, enquanto que o filho fazia de patrão e me tratava como um simples empregado.

Ele já se tinha esquecido dos primeiros anos que passámos juntos e das viagens que juntos fizemos para ele conhecer os contactos comerciais da nossa (agora dele) empresa. Levei-o a Itália e corremos as zonas têxteis, de fio a pavio. Levei-o comigo à Índia para ele conhecer um mercado têxtil cada vez mais importante para nós europeus. Nessas viagens fui mais que pai dele, velando-o enquanto dormia, depois de enormes bebedeiras para lhe diminuir o medo de andar de avião.

Talvez esse medo tenha vindo de uma viagem que fizemos a Itália. O avião em que seguíamos teve uma avaria, ficou despressurizado e o comandante teve que descer até aos 5 mil pés para conseguirmos respirar, uma vez que o sistema das máscaras de oxigénio não funcionou e vivemos verdadeiros momentos de pânico, até diminuir a altitude. Alguns passageiros com taquicardia, uma senhora com um bebé de colo que quase morreu do coração ao ver que o seu filho não respirava. Alguém lho tirou das mãos e lá conseguiram acalmá-la. Parece que havia um médico a bordo que meteu debaixo da língua um comprimido aos dois velhotes que estavam mais aflitos.

O comandante foi obrigado a desviar o avião para o aeroporto de Barajas, em Madrid, voando a baixa altitude e baixa velocidade, onde chegamos na hora em que devíamos estar a aterrar em Milão. Esperámos meia dúzia de horas até a TAP arranjar um avião de substituição para nos levar a Itália. Vi-me grego para convencer o Adolfo a reembarcar, ele queria voltar a casa de comboio, estava mesmo em pânico. Mais um uísque duplo e lá o consegui enfiar no avião. Daí em diante foi difícil fazê-lo andar de avião, até ao momento em que se tornou patrão e teve que puxar dos galões e fazer-se homem.

Com a falência da nossa (dele) empresa perdi-o de vista. De vez em quando, chegam-me notícias dele, mas nunca mais o vi! O pai já morreu, há muito, ainda antes da falência, e o Adolfo teve que armar-se em forte e seguir em frente. Como não faltava dinheiro na família, acredito que tudo tenha corrido às mil maravilhas e já se deve ter esquecido dos sustos que apanhou a 40 mil pés de altitude! 

3 comentários:

  1. Quando for grande também quero ter uma imaginação tão fértil quanto a do autor.
    PS - Acredito que a história seja verídica, mas é preciso saber contá-la, né?

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  2. As histórias das victimas do 25 de Abril são demasiadas, a do Adolfo é mais uma... Quanto a histórias de voos assustadores lembro-me particularmente de um nos anos 80's em que escorreguei na carpete já pôdre do avião: Aeroflot flight SU 560. Também em barcos as coisas por vezes não correm muito bem: recentemente durante a travessia da Drake Passage (um cemitério de marinheiros) uma senhora partiu os quadris e tivémos que dar meia volta.

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