domingo, 30 de novembro de 2025

Celina, a ruiva!

 Já que as minhas últimas matérias não vos têm levado a escrever qualquer tipo de comentário, vou voltar ao assunto "namoradas" que tem andado esquecido.


A Celina não foi, propriamente, uma namorada, foi antes uma paixoneta de adolescente. Aos 16 anos, com as hormonas todas aos saltos, qualquer figura de mulher mais atraente nos obrigaria a dizer aquilo que eu disse, na altura: - que espectáculo de mulher, é assim que eu quero uma namorada!

Terminei os exames do 5º Ano do Curso dos Liceus, em Julho de 1960, na cidade onde hoje resido, e rumei à minha terra natal para gozar as férias grandes. Depois de um ano escolar muito exigente e num meio a que não estava habituado, eu precisava mesmo de umas férias para descansar o cérebro e preparar-me para um futuro ainda desconhecido, pois o meu pai já me avisara que não tinha condições financeiras para eu continuar a estudar.

A minha mãe era costureira e dirigia um atelier de costura em que havia uma meia dúzia de empregadas, entre ajudantes e aprendizas. Ela fazia a feira de Barcelos, a cada quinta-feira, e quando não tinha roupa para fazer por encomenda trabalhava para a feira, ou seja, fazia uma meia-dúzia de vários artigos que costumava vender com facilidade. Aventais, algibeiras e sacas com uma fita de correr para as fechar e uns berloques pendurados nos cantos eram artigos que tinham sempre saída.

As ajudantes eram antigas aprendizas que ainda não tinham conseguido reunir uma freguesia que lhe pagasse as sopas e vinham ajudar a minha mãe, meio por favor e meio para receber um magro ordenado que a minha mãe podia pagar. Algumas até apareciam às quartas feiras, sem serem convidadas, para dar alguma ajuda de última hora na preparação dos artigos para a feira do dia seguinte, ou para afiar a língua, simplesmente.

Nesse longínquo mês de Julho de 1960, quando entrei na sala de costura da minha mãe, caíram-me os olhos numa ruiva de grande cabeleira cacheada que, de perna traçada, como costumam trabalhar as costureiras, se ocupava de chulear umas quantas peças que tinham vindo das máquinas de costura. A minha mãe, habitualmente, só cortava e nas máquinas trabalhavam as ajudantes ou aprendizas mais adiantadas. Para as outras ficavam as operações de chulear, rematar e pregar botões, molas ou colchetes.

Fiquei de olho na ruiva e uns dias depois acompanhei-a num recado que a minha mãe a mandou fazer a casa de uma cliente que não morava longe. É sabido que os homens, quando vêem uma mulher, fixam os olhos no pormenor (ou pormaior) que mais ressalte à vista. No caso da Celina, depois da cabeleira que parecia a juba de um leão (as leoas não tem juba!), era a exuberante peitaça que espreitava através da pequena abertura da sua blusa, ou se podia adivinhar dentro dela.

Ela deveria ser 2 anos mais velha que eu e nunca tive a mais leve esperança de me agarrar a ela e testar a firmeza das suas "maminhas", mas acompanhei-a sempre que pude, naquele inesquecível verão que foi o último da minha vida em liberdade plena. E sonhava com ela todos os dias e com a possibilidade de arranjar um emprego (nessa altura sonhava ser bancário ou empregado das Finanças) que me permitisse pedi-la em namoro e depois em casamento.

Foi um sonho que durou pouco, ao fim de 3 meses a minha mãe dispensou toda a gente, encerrou o atelier para seguir o meu pai que tinha, finalmente, arranjado um emprego fixo, com salário mensal e abono de família para os filhos, na cidade grande. Adeus vida de aldeia minhota e convivência (sã e simples) com gente que vivia da lavoura. Semear e colher milho e tratar de videiras para uma boa colheita de vinho que eram as duas bases da vida daquela gente.

Com o fecho do atelier deixei de ver a Celina e depois a viagem até Vila do Conde apagou-lhe o rasto que ainda pudesse persistir na minha cabeça. Uma vez ou outra ainda pensei em viajar até à freguesia onde ela morava e fazer-me encontrado com ela, mas os meios de transporte à minha disposição eram poucos e acabou por nunca acontecer.

Nunca mais via a Celina! Dois anos depois já tinha jurado bandeira, na Marinha, e estava a ponto de seguir para a África para defender as cores da nossa bandeira e as terras a que chamávamos nossas. Angola é nossa, Angola é nossa, cantava-se nessa altura e os terroristas negros tinham feito misérias, em Angola, no ano anterior. Por sorte, calhou-me ser destacado para Moçambique, onde a guerra começaria, apenas, no último trimestre de 1964.

Nessa data, já a minha «Companhia de Fuzileiros» estava pronta para regressar a Lisboa, mas o estourar da guerra, no norte da província, fez adiar o meu regresso. Só em fins de Março do ano seguinte recebemos ordem para regressar, mas isso é outra história e a Celina, a ruiva de formas provocantes, não fez parte dela! 

2 comentários:

  1. Sempre tive um fraco pelas Costureiras & Sopeiras que na epoca deambulavam pelas vielas da velha Lisboa mas nunca me lembro de as ver caminhar. Naquela altura para mim... elas flutuavam!!!

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  2. Gostei e ainda ri com vontade!
    Beijos e um bom domingo!

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