quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Pai herói!

Depois do foguetório que arrancou palmas à assistência e aqueceu o bolso dos fogueteiros que tanto se queixam de o negócio não tem corrido bem, eis-nos no dia 1 do novo ano de 2026. Datas a começar por 2025 passaram à história, não mais é possível utilizá-las nas nossas comunicações, aliás, os sistemas automatizados forçam-nos a aceitar a data sugerida por eles para nos poupar essa preocupação.

Os computadores obrigam-nos a escrever as datas no modelo AAAA-MM-DD, pois só assim se conseguem localizar no tempo e responder sem erros, quando essas datas nos fazem falta. 2026-01-01 é a data do dia que hoje vivemos e ficará averbada no cabeçalho desta mensagem, logo que eu termine o texto e o publique.

Mãe, quando é que o pai volta para casa? Não sei, filho, respondia a mãe à criança que teria cerca de 6 anos de vida, o teu pai foi ganhar dinheiro para nós termos comida e um teto para nos abrigar da chuva e do frio. Mas, amanhã, é Natal, mãe, e o pai sempre passou o Natal connosco. Pois é, mas este ano não vai dar, ele está muito longe!

A mãe da criança vira-se, depois, para a sua própria mãe que se aquecia ao borralho da lareira e comenta. Também eu gostaria de saber quando ele volta, há mais de 6 meses que ele embarcou para a Madeira e nunca mais tivemos notícias dele. É verdade que aqui os trabalhos escasseiam e são mal pagos, mas deixar a família para trás para ir à procura de trabalho, longe daqui, não é coisa que me agrade.

Na ilha da Madeira o trabalho, a que se dedicava o homem de quem falavam, era a construção de uma estrada, à beira-mar que deveria ligar o Funchal ao Machico. A zona era montanhosa, as encostas da serra começavam, praticamente, na rebentação e subiam a pique que até metia medo. Não era ainda o tempo de usar grande maquinaria, tudo era ainda feito à força de braços.

Trabalho de pá e pica, onde por vezes era preciso rebentar a penedia com recurso a explosivos. E os furos para introdução do explosivo eram broqueados na rocha dura à força de marretadas. Horas seguidas a martelar nos compridos cinzéis que iam abrindo caminho para ali caber um cartucho de gelamonite, poderoso explosivo que fracturava a rocha e abria fissuras que permitiam o uso de alavancas para remover os pedaços que mais tarde seriam escavacados por ostros membros da equipa que vinham atrás.

Homens a servir de britadeiras, trabalho para homens de têmpera rija. Trabalho que envolvia também alguns riscos, pois o uso de explosivos provocava desmoronamentos que punham em risco a vida de quem ali trabalhava. Aliás foi esse risco e o ter assistido a vários casos em que colegas seus tiveram que ser levados para o hospital para serem assistidos que o fizeram desistir daquele trabalho. Fez as contas com o empreiteiro que o levara para lá e com o dinheiro no bolso dirigiu-se para o Funchal à procura de um barco que o trouxesse de volta ao continente.

E, por alturas do Carnaval, desse ano de 1950, o homem chegava a casa para alegria da sua família que tanto sentira a sua falta. Pai, nunca mais vais trabalhar para a Madeira, pois não, perguntava aquela criança que nem sabia o que era ou onde ficava a Madeira, mas ouvira pronunciar esse nome dezenas de vezes pela sua mãe e avó. Não, filho, o pai agora vai ficar a trabalhar aqui em casa.

E assim aconteceu, o homem comprou os apetrechos necessários para trabalhar em cestaria e instalou-os num coberto da casa que fora, em tempos, uma casa de lavoura, onde espaço era o que mais havia. Onde ele aprendeu a arte, nunca ninguém soube, mas a verdade é que das suas mãos saíram muitos cestos de diversos tamanhos, com asa ou sem ela que eram vendidos a quem deles precisava. E a criança sentava-se ao lado do pai vendo-o trabalhar. E sentia-se feliz !!! 

Sem comentários:

Enviar um comentário