domingo, 12 de abril de 2026

Mtelela, o campo da morte!

Ainda antes da independência, durante o período de transição em que Moçambique foi governado por uma autoridade híbrida luso-moçambicana, foram instituídos campos de reeducação, essencialmente na distante província do Niassa.

O objectivo declarado desses campos era formar o homem novo, reabilitar pelo trabalho, as franjas da sociedade que eram consideradas mais marginais ou dissidentes. Foi neste âmbito que pessoas consideradas adversárias políticas foram detidas e mortas em circunstâncias que até agora não foram esclarecidas.

Isto sucedeu nomeadamente com Uria Simango, Joana Simeão e Adelino Guambe, figuras que tinham sido activas no seio da Frelimo e que foram acusadas de traição por não concordarem com a linha seguida pelo partido.

Antiga Nova Viseu e actual Mtelela

Peneirei, cuidadosamente, toda a zona que o Google Earth me mostrou como sendo a zona da antiga Nova Viseu, mas não encontrei o mínimo sinal de construções antigas ou modernas. Deslocando-me um pouco mais para norte, encontrei uma povoação de tamanho considerável que bordeja uma estrada que corre no sentido norte/sul. Pode ou não corresponder ao famoso sítio que a Frelimo escolheu para erguer um «Campo de Reeducação», onde foram parar quase todos os que discordavam das ideias de Samora. E, como é sabido, a maioria deles acabou ali enterrada, depois de torturada e assassinada.

Depois da minha prelecção de ontem, a respeito da Guerra Colonial, hoje apeteceu-me falar mal da Frelimo e do escroque que a liderou até alguém o ter enviado para o outro mundo por intermédio de um petardo habilidosamente escondido no avião que o trazia de regresso a Moçambique, após curta visita à África do Sul, onde foi vender as suas ideias de independência.

Começo por mostrar-vos a cara de uma jovem moçambicana que estudou em Portugal e com os estudantes seus colegas aprendeu a odiar o Salazar e a sua política, incluindo aquela que mantinha Moçambique debaixo das patas dos colonizadores que não lhes davam a independência. Houve outros antes dela, tão ou mais importantes para a «História de Moçambique» que algum dia alguém se encarregará de escrever, mas ela foi uma das mais faladas a acabar os seus dias no famoso campo em que os frelimistas queriam criar o "Homem Novo".

Homem Novo queria apenas dizer aquele que aceitava viver sob as regras estabelecidas por Moscovo e que os novos governantes de Moçambique juraram seguir, em troca das armas e demais ajuda que a Rússia lhes deu na guerra contra Portugal. Nada mais que uma lavagem ao cérebro era o que planeavam fazer os caciques do partido a todos os moçambicanos e, pelo que ainda hoje vemos na população menos bem informada, esse objectivo foi alcançado.

Como estudante, em Lisboa, a Joana depressa entrou em contacto com outros estudantes negros que perfilhavam as suas ideias. E cedo a PIDE a tinha referenciado como alvo a abater. Mas ela antecipou-se e depois de uma fuga para Madrid foi parar a Argel, onde se casou e teve os primeiros contactos com a Frelimo. Pouco tempo depois, já estava em Paris e divorciada e mãe de 3 filhos.

Em 1971, regressou a Moçambique com a ajuda de Jorge Jardim e viveu algum tempo na zona da Beira, mas depressa foi parar à capital, onde arranjou emprego como professora no Liceu António Enes. Em 1973, a convite de Máximo Dias, entrou no novo partido GUMO que ele fundara. Com a Revolução dos cravos a aproximar-se, rapidamente, Joana conhecera muita gente importante do círculo de Marcelo Caetano e tinha sobre ela os olhos e ouvidos da PIDE. Antes disso, ela ainda esteve em Lisboa e em nome do partido GUMO tentou convencer os governantes portugueses a alinhar numa desolonização amigável.

Nada feito, pois os ditos governantes não estavam na disposição de perder a sua colónia a que agora chamavam província de um império que ia do Minho até Timor. E então aconteceu o 25 de Abril e aquela sucessão de arbitrariedades levadas a cabo pelos comunistas e socialistas portugueses, comandados por Mário Soares, que terminou nos "Acordos de Lusaka". Em dissidência com Máximo Dias abandonou o seu partido e, após várias tentativas de formar um novo com novos aliados, acabou ligada a Uria Simango que juntou vários pequenos partidos e fundou o PCN (Partido da Coligação Nacional e abrindo uma frente de guerra com a Frelimo de Samora Machel e Joaquim Chissano.

Os moçambicanos brancos, filhos e netos de portugueses, não estiveram de acordo com aquilo que Mário Soares combinou em Lusaka e, em 7 de Setembro, revoltaram-se e tomaram o controlo da Rádio Clube de Moçambique com o resultado que todos conhecemos. Libertaram presos e pides e transformaram Lourenço Marques num grande "casino", como dizem os italianos. Em sequência disso, a Frelimo aproveitou para reforçar o seu poderio e eliminar qualquer foco de dissidência com o seu partido que já era preponderante.

E a Joana Simião, além de Uria Simango, foi o primeiro alvo a abater e acabar julgada secretamente e condenada como traidora à causa moçambicana. Ela e mais cerca de 3.000 outros políticos foi presa e andou de um lado para o outro até chegar a Nachingwea, na Tanzânia, onde Samora organizou vários julgamentos de fachada e a condenou a internamento do Campo de Reeducação de Mtelela para aprender a amar e respeitar a Frelimo. Em circunstâncias pouco conhecidas, mas com alguns testemunhos credíveis, ela foi ali torturada e assassinada e enterrada em lugar desconhecido.

Visita ao lugar (vala comum) onde foram enterradas muitas das vítimas

Por muitos anos, o regime obrigou crianças e adultos a desprezar pessoas como Joana Simeão, Uria Simango, Cavandame, como se quase fossem criminosos e não vítimas de uma ideologia de estado que não hesitou eliminar, torturar e deportar inocentes nos campos de extermínio. Como esquecer as duas levas de gente, em meados dos anos 70, nas quais milhares de mulheres, incluindo mães de família e rapariguinhas, foram deportadas, acusadas injustamente de prostituição? Ou então a Operação Produção de 82 quando 70.000 pessoas do sul foram aviadas na Sibéria verde do norte onde mais de metade morreu de miséria? Muitos dos sobreviventes regressaram a casa, por obra especialmente da Caritas, mas muitíssimos vivem ainda no Niassa, desenraizados e mal tolerados.

1 comentário:

  1. A última vez que ouvi falar em campos de re-educação foi quando visitei a famosa prisão S-21 em Phnom Penh criada pelo regime de Pol Pot. Vários filmes entre eles 'The Killing Fields' descrevem uma das maiores atrocidades cometidas pelos komunas do Ano Zero. Tenho a certeza que o Senhor Chum Manh um dos sobreviventes teria todo o prazer de ir à Festa do Avante e mandá-los todos para a PQOP! O que se passou em Moçambique depois da Independência foi uma amostra do que a estupidez esquerdista é capaz. As put@s da Rua do Crime foram de tal maneira re-ducadas que depois da morte do Samora Machel... voltaram novamente ao negócio!

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